8 de set de 2015

Conto: "Nem vinte minutos de perdão"


"Nem vinte minutos de perdão"

  Fazia um sol forte naquela manhã de quarta feira. Mas era uma quarta-feira decisiva para a democracia brasileira, a última que antecedia as eleições gerais no país. Agenda cheia para José Mustafá, que foi prefeito de Babaçual do Oeste e deputado estadual três vezes consecutivas pelo estado do Maranhão. Mustafá almejava o quarto mandato na Assembleia Legislativa, e estava cumprindo sua programação agitada, ainda em campanha eleitoral. Havia rumores de que desta vez ele não se reelegeria, pois as suspeitas de que ele tinha embolsado comissões na construção de várias creches e escolas pelo estado afora mancharam um pouco sua reputação. Mas nada comprovado, pois em todos os julgamentos ele havia sido absolvido por juízes pra lá de suspeitos, cuja imprensa relatou estreitas ligações com o referido político.

     José Mustafá era latifundiário influente, dono de uma oratória razoável, que seduzia a atenção dos menos informados. As más línguas diziam que seus votos eram conquistados através da barganha por míseros trinta reais.  Sua plataforma política era pautada na defesa absoluta da propriedade privada, no respeito aos valores cristãos, e acima de tudo, na punição rigorosa aos criminosos que atormentavam o cotidiano do trabalhador e das pessoas “de bem”.

     Rodeado de seguranças, o nobre deputado andava pelas ruas de São Luís, beijando criancinhas, cumprimentando velhinhos e distribuindo santinhos que continham sua foto e o número da candidatura. Em dado momento, abriu mão dos seus protetores armados e engravatados. Foi nesta hora em que Rufino, um ladrãozinho sem eira nem beira, correu na direção do deputado, tentando bater sua carteira com a velocidade de um leopardo cleptomaníaco. Sem sucesso. O leopardo não conseguiu ser mais veloz que um dos leões de chácara que cuidavam da segurança de Mustafá.

   Em poder dos seguranças, Rufino esperneava, até que a Polícia Militar chegou, jogando-o violentamente na viatura. Enquanto isso, Zé Mustafá gritava em meio à multidão, que o aplaudia: “Lugar de bandido é na cadeia! Rufino tem pouco mais de dezoito anos, e a obra da escola do seu bairro não foi concluída, mesmo tendo sido iniciada há doze anos, por suspeita de superfaturamento. O leopardo cleptomaníaco cumpre pena no perigoso presídio de Pedrinhas, na capital maranhense. No domingo de eleição, Mustafá comemorou sua vitória  em grande carreata pelas ruas de Babaçual do Oeste.

   No Brasil é assim: Se um ladrão de colarinho branco for roubado por um ladrão descamisado, o pé rapado em questão não tem nem vinte minutos de perdão. A clemência de um século só é valida para os ladrões abastados, em que famoso provérbio dos "cem anos de perdão" é uma via de mão única...



* O Eldoradense


Nenhum comentário:

Postar um comentário