15 de jul de 2017

Conto: "Justo"


"Justo"


    Pode parecer uma daquelas coincidências da vida, mas o menino nasceu fruto do amor de Justino e Justina, e, para seguir a mesma linha do nome dos pais, foi registrado em cartório civil e batizado na igreja católica pelo nome de "Justo".
   Justo foi crescendo, e aos poucos, mostrando que fazia jus ao nome. Repartia o lanche da escola com os amigos, era solidário com todo mundo, enfim, tinha o bom senso como sua principal característica. Estudou, fez catecismo, primeira comunhão, crisma, e como não poderia ser diferente, foi aprovado com louvor no vestibular de direito. Mas justo não queria advogar, porque isso poderia fazer com que ele defendesse culpados, e esta não era sua meta na ciência jurídica. Queria ser mesmo era ser juiz! Fazer justiça, bater o martelo, decretar sentenças, julgar!
    Inteligente e esforçado que era, atingiu seu objetivo de forma meteórica. Vestiu a toga quase que na mesma época que o fraque, quando casou-se com Adalgisa, uma advogada bonita e perspicaz, incrementando ainda mais sua vida assertiva.
    Justo era tão justo que em um campeonato de futebol infantil foi convidado para ser árbitro de futebol do jogo do time próprio filho, tamanha sua imparcialidade. Não cometeu um deslize, foi imparcial, coerente, e até expulsou o seu rebento por conta de uma falta grave no adversário. Era um juiz exemplar, até mesmo dentro do campo de futebol.
   Mesmo tendo conduta tão ilibada, Justo foi traído por uma força interna maior: a libido. Em um dos tribunais da vida, conheceu Jesebel, também advogada, e não menos bela que sua esposa. O juiz entrou em parafuso! Cometeu aquele que considerava o seu primeiro deslize em vida, fazendo parte de um relacionamento extra conjugal que de certa forma, lhe complementava. Adalgisa era o porto seguro, a calmaria, enquanto Jesebel era a tempestade, a intensidade. E foi brincando, ora no carrossel, ora na montanha-russa, que Justo foi levando sua vida dupla.
   Mas inexperiente com mentiras e desprovido de malícia, logo foi flagrado. Uma mensagem no celular, com encontro marcado, data, hora e local fez com que Adalgisa o pegasse com a boca na botija. Ou melhor: com a boca nos lábios de Jesebel, na casa da amante!
   Discussão à vista! Duas advogadas falando mais que o vendedor de peixes, cada qual com suas argumentações, e Justo ali no meio, envergonhado, cabisbaixo, sem palavras. Restou-lhe propor a pior sentença de sua vida: sugeriu ficar com a esposa nas segundas, quartas e sextas, e com a amante, nas terças, quintas e sábados. O domingo, dia preferido de ambas, seria alternado. Ridículo. As duas lhe viraram as costas e ele percebeu a gravidade do erro.
  Católico fervoroso, quis consertar o seu erro perante Deus. Procurou um grande amigo que era padre, fez a confissão, e num gesto radical e surpreendente, passou a habitar o seminário. Na obsessão de se tornar novamente perfeito, tanto fez que trocou a toga pela batina. Precisava ser novamente ilibado e domar a libido masculina. Resgatando o respeito com a comunidade, tornou-se um sábio sacerdote, com grande erudição em suas homilias e pregando penitências aos pecadores em suas confissões.
  Adalgisa e Jesebel, obviamente seguiram suas respectivas vidas, casaram-se novamente, porém, perdoando o Padre Justo. Ainda hoje, ambas mantém amizade com o sacerdote, e, quando necessário, também fazem suas confissões com o clérigo. E é lógico, que para reparar o trauma causado, Justo lhes reserva horários especiais, e a confissão é feita não no confessionário, mas em outros aposentos, como uma forma de compensação ao transtorno causado no passado...



* O Eldoradense

Um comentário:

  1. Anônimo10:06


    Seremos sempre nossos piores juízes.
    A vida em sociedade é um espelho em que você se vê refletido naqueles que o cercam.
    Você é bom? Ótimo, pare de julgar por sua bondade.
    Você não é bom? Então não seja tolo, não prejudique a si mesmo sendo tão severo condenador!

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