6 de out de 2015

Conto: "O hipnotizador de mulheres"


"O hipnotizador de mulheres"

  -Vladimir... venha cá, menino!

    -O que foi, vô !?

   - Quero lhe entregar um presente. Um presente de família, que é repassado há três gerações do clã dos Baravenkos. Seu pai chegou a recebê-lo das minhas mãos, mas pouco antes de falecer, me devolveu, pedindo para que eu o repassasse futuramente. Como você fez questão de aprender nosso idioma desde pequeno, te acho merecedor disto...

  Seu Dimitri Baravenko encontrava-se nos últimos dias de vida, e fez questão de entregar um manuscrito ao neto, contendo, nas folhas amareladas pelo tempo, os segredos da hipnose. Mas não era um manuscrito abrangente sobre o tema, era algo bem específico, voltado exclusivamente para a sedução de mulheres. O velho Dimitri foi um boêmio conquistador na Ucrânia, estando sempre ao lado de belas companhias femininas, as quais brindava com bastante vodca nas noites geladas de Kiev. Quando se casou com Natasha, a mulher de sua vida, percebeu que os poderes adquiridos através daquele livro cessaram, pois segundo os ensinamentos dos Baravenko, quando um hipnotizador se apaixona, torna-se mero hipnotizado. Após casar-se, seu Dimitri migrou para o Brasil, mais precisamente para Curitiba, onde formou sua numerosa família.

   No momento em que recebeu o manuscrito, Vladimir, ainda criança, não deu tanta importância ao presente. Mas foi aos quatorze anos, movido pela testosterona e pela curiosidade de adolescente, que recorreu ao velho baú empoeirado da família. Leu as trinta páginas do manuscrito com avidez, e em alguns dias, fez a primeira vítima: Anastácia, a vizinha viúva e jovem, que apresentou-lhe com intensidade os mistérios e as belezas do corpo feminino.

  Após Anastácia, Vladimir hipnotizou Beatriz, Célia, Daiana, Eliane. Viveu relações sem compromisso com mulheres cujos nomes iniciavam-se com praticamente todas as letras do alfabeto, exceto a última. Conheceu descendentes de ucranianas, alemãs, orientais e até a neta de um cacique Kaingangue. Exageros à parte, dizem as más línguas que metade das jovens curitibanas foi hipnotizada pelo insaciável Vladimir.

    Quando conheceu Zuleica, uma mulata de formas fartas e jeito faceiro, o neto do seu Dimitri percebeu que havia perdido o dom da hipnose. A estudante de psiquiatria o conquistou como se o enfeitiçasse sem dó nem piedade. Entregue ao amor, Vladimir se casou com a mulata em uma cerimônia simples, que colocou fim aos seus rituais hipnóticos de conquista. Da união, nasceu Pedro, um mulatinho de olhos verdes que certamente, daqui uns quinze anos, fará bom uso do livro secreto dos Baravenkos...


* O Eldoradense

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