11 de ago de 2015

Conto: "Namira"


"Namira"
  
  Chamava-se Namira Severino Kawagushy da Silva. Era um desses exemplares humanos da exótica e complexa miscigenação brasileira. Seu pai era japonês, sendo que a cultura nipônica lhe foi repassada fielmente por sua família, desde a mais remotas gerações dos seus antepassados. A mãe era paraibana, mulher macho, sim senhor. Dizem que seu bisavô materno fez parte do temido bando de Lampião, que azucrinava a paz dos sertanejos nordestinos na primeira metade do século passado. Como se não bastasse, seu tataravô, do lado oriental da família, dominava as artes marciais e as habilidades com a espada, sendo praticamente um samurai.


  Como consequência desta mistura étnica e cultural, Namira tinha a cabeça achatada, os olhos puxados e um sotaque esquisito, difícil de definir. Mas o que o tornava mais diferenciado, era a habilidade com as armas: manuseava a espingarda com a destreza de um cangaceiro, assim como a peixeira, tendo com ela, a agilidade dos ninjas. Muitos achavam que “Na mira” era seu apelido, tamanha a precisão dos seus tiros. As más línguas diziam que ele havia sido matador de aluguel, outros, que era apenas justiceiro, assassinando somente os que mereciam ser mortos. Mas não havia prova qualquer dos seus homicídios. O misterioso “Japaraíba” era quase que místico, lendário e talvez fosse até imortal.


  Certa vez, enquanto saboreava um delicioso sushi com farinha de mandioca em um restaurante de Campina Grande, Namira foi abordado por Zé Nonato, tenente aposentado da polícia, que agora trabalhava de capataz na fazenda do Coronel Coreolano. O jagunço queria marcar um duelo de tiro ao alvo com Namira, dizendo que nunca havia errado qualquer disparo em sua vida. O duelo foi prontamente aceito. Era um domingo à tarde, e a fazenda estava repleta de curiosos. Um árbitro profissional de tiro ao alvo foi contratado para mediar o tira-teima. Zé Nonato sugeriu a “prova das moedas” e Namira aceitou. O jagunço atiraria primeiro, em uma moeda de um real lançada ao alto. E de fato, Zé Nonato acertou em cheio o alvo.


  Posteriormente, foi a vez de Namira, que deu um sorriso irônico de canto de boca. O “Japaraíba”, disse que seu tiro atingiria o máximo da perfeição, coisa nunca antes vista por alguém naquelas bandas. Moeda ao alto e o tiro foi disparado obtendo precisão cirúrgica. Mas o inesperado, o místico, o inusitado, ainda estava para acontecer: ao conferir o que restara da moeda, o árbitro percebeu que não haviam pedaços da mesma. Estavam ali, de forma estranha, milagrosa e inacreditável, duas perfeitas moedas de cinquenta centavos. Namira havia acertado a moeda com tanta exatidão, que dividiu-a em duas outras, com metade do valor, cada uma!


Todos correram assustados, acreditando que Namira tinha um pacto com alguma entidade sobrenatural, ou coisa do tipo. O Japaraíba pegou o prêmio de mil reais em dinheiro, um cantil de saquê e um quarto de rapadura. Montou em seu jumento e foi embora, sumindo em meio a poeira misteriosa da estrada de chão...


* O Eldoradense

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