1 de mar de 2017

Conto: "Borboletas sempre voltam"


"Borboletas sempre voltam"

    Era uma noite de verão qualquer em uma cidade qualquer do Brasil. Nesta noite de verão qualquer, em uma cidade qualquer do Brasil, aparece uma mulher qualquer, casada com um homem qualquer, diante de um delegado qualquer. O delegado qualquer pergunta à mulher qualquer:

         - O que aconteceu, senhora?

         Ela responde:

    - Fui agredida pelo meu marido, levei pontapés diante dos parentes dele, e ele nem levou em consideração minha gravidez...

     - Anote tudo! - disse o delegado qualquer ao escrevente qualquer - Continue, por favor...

     - Ameacei prestar queixa, mas a irmã dele me trancou no apartamento, e só depois de gritar muito e ser socorrida por uma vizinha, consegui sair daquele inferno...
  
    - Prossiga...

   - Não tem mais o que dizer, assim que consegui sair de lá, vim para cá, na intenção de prestar queixa...

    - Ok! A senhora confira se o texto do escrevente condiz com o seu depoimento, e se estiver de acordo, assina o documento. Depois, iremos fazer o exame de corpo de delito.

   A mulher qualquer voltou para uma outra casa qualquer, abalada emocionalmente. No dia seguinte, um entregador de flores entrega um buquê com um pedido de perdão, que parece soar cínico, pois a maioria dos covardes é cínica. Ela fica sensibilizada, leva em consideração que ele pode mudar seu jeito de ser, ao mesmo tempo que sente também um certo medo de futuras retaliações. Pensa também no conforto que poderia perder se prosseguisse com a denúncia. Passou a espalhar nas redes sociais que não houve agressão alguma, que o marido rico é um fofo, e que tudo não passou de uma "briga de casal". Tarde demais. A Lei Maria da Penha dá prosseguimento aos processos investigativos mesmo mediante retirada da queixa da vítima.

   A intimação chega na casa do marido fofo, louro e carismático. Ele responde ao investigador que irá prestar todos os esclarecimentos, pois se tem uma coisa lhe causa repugnância, é agressão física.

    Eis que o marido qualquer chega diante do delegado qualquer, que após os cumprimentos iniciais, pergunta:

     - Senhor marido qualquer, como está o seu relacionamento com sua esposa qualquer?

    - "Não sei dizer, o que mudou, mas nada está igual! Numa noite estranha a gente se estranha e fica mal..."

     - E o que fez ela voltar atrás e dizer para todo mundo que não houve agressão alguma?

    - Ah, Doutor... "Borboletas sempre voltam, e o jardim dela sou eu!"

    As perguntas continuaram, e não sabemos no que vai dar mais este caso de agressão qualquer, de um homem covarde qualquer sobre uma mulher qualquer. Mas é fato que a maioria dos covardes é cínica, e, por coação, consegue fazer com que as vítimas sejam igualmente cínicas.


* O Eldoradense


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