7 de jul de 2015

Conto: "A touca negra"



“A touca negra”



   Não sei há quantos invernos ela me aquece, mas com certeza, são mais que sete e menos que dez. Sempre que o mês de junho começa a mostrar seus ares gélidos sobre minha calvície e minhas orelhas, lembro-me dela: uma touca negra de lã, que me afaga confortavelmente, diminuindo a sensação de frio e solidão nas madrugadas do meio do ano. É uma sensação horripilante a arrepiante, que começa pelo couro cabeludo, passa pela nuca e parece correr por toda a espinha. Frio incômodo, que é amenizado pela providencial touca negra, que comprei não sei onde, não sei por quanto, muito menos quando. Mas não lembrar detalhes da sua aquisição não diminui sua importância. A touca negra é mesmo essencial durante as jornadas de inverno em meu trabalho noturno.

 Sua lã escura me abraça, me acaricia, me envolve de tal forma que passo a testemunhar o inverno apenas visualmente, graças ao vão que ela possui na altura dos olhos. As noites frias, apesar de castigantes, geralmente apresentam céu limpo, cujas estrelas estão em maior número, mais vivas, mais brilhantes. E eu e minha inseparável touca negra já vimos muitos céus espetaculares deste tipo, ao longo de sete, oito, ou quem sabe, dez invernos. Mas quando chega o verão, ela vai para a máquina de lavar, e posteriormente, para a repartição intermediária do meu guarda-roupas, onde espera ansiosamente pela próxima temporada gélida de meio de ano.

  Desta vez não foi diferente: o ar frio que toca a calvície, passa pela nuca e se prolonga por toda a espinha passou a me incomodar no final do mês de junho. Era hora de procurar a touca negra. Fui até a repartição intermediária do meu guarda-roupas, e ela surpreendentemente não estava lá. Fiquei contrariado. Procurei em outro guarda-roupas, e depois em um “malão”.  Insistente, procurei outras quinhentas e cinquenta e cinco vezes novamente na repartição intermediária do meu guarda-roupas oficial, sem êxito. Com certeza, ela não estava em casa. Procurei então no “armário 62” do vestiário do meu trabalho, onde sua ausência foi também confirmada. Passei a me sentir traído e desamparado nas madrugadas gélidas e atipicamente chuvosas deste ano. Definitivamente a touca negra havia me pregado uma peça. Sofri por alguns dias com o frio que começava pela calvície, passava pela nuca e se prolongava pela espinha.

   Ontem à tarde fui em um destes “lojões” de bugigangas que vendem de tudo, desde agulhas até capacetes para astronautas. Em uma bancada de madeira, próxima à porta, havia toucas e luvas de todos os tipos, de todas as cores, para todos os gostos. Toucas azuis, vermelhas, listradas e até do Corinthians; (esta última, eu não usaria nem se estivesse no Alaska). Mas enfim, tive que comprar outra touca negra, que não tinha o mesmo charme da primeira, muito menos aquele vão na altura dos olhos que eu achava misteriosamente charmoso. Porém, era preciso amenizar o frio que tocava a calvície, passava pela nuca e se prolongava pela espinha. 

  Às dezessete e trinta de ontem, na hora de pegar uma blusa na repartição intermediária do meu guarda-roupas, me surpreendi com a touca negra que eu havia procurado quinhentas e cinquenta e cinco vezes. Ela me fitava irônica através do vão na altura dos olhos. Parecia caçoar de mim, ou talvez se sentisse vingada pelos seis meses de abandono na temporada de calor. Mas ela estava lá, pronta para me acompanhar em mais uma noite gélida de trabalho noturno. Não tive dúvidas: guardei a touca nova comprada na loja de bugigangas e levei a minha velha e vingativa companheira comigo. 

  Talvez ela tenha feito isso por carência, ou então, para chamar a atenção. Numa possibilidade mais remota, eu não tivesse procurado direito nas outras quinhentas e cinquenta e cinco vezes em que me dirigi à repartição intermediária do meu guarda-roupas. Mas a verdade, é que ela é uma touca negra de lã: e quem confia nas “ovelhas-negras”, está sujeito a alguns riscos...


* O Eldoradense

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