28 de mar de 2015

A "Gruta que chora", na Praia da Sununga, em Ubatuba: Versão científica x Versões caiçaras...

A "Gruta que chora", na Praia da Sununga, é carregada de lendas e mistérios nutridos pela população caiçara

  Já havia citado anteriormente o número de praias existentes em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Em uma delas, na Praia da Sununga, existe um diferencial paisagístico que chama a atenção: a "Gruta que chora". Na versão científica dos geólogos, ela é uma formação rochosa vulcânica porosa parecida com um funil, cujo vão maior está voltado para o mar. A vibração acústica proveniente da força das ondas faz com que água doce se precipite da gruta através da porosidade das rochas, e sobre a gruta, obviamente, existe uma nascente. A intensidade da precipitação de água doce da gruta é então diretamente proporcional à intensidade das ondas do mar: quanto mais ondas fortes, mais a gruta "chora". Agora, se o leitor é um romântico, amante por versões lendárias, eis aqui uma das inúmeras versões contadas pela população nativa: o texto foi extraído do blog coisas de caiçara, de José Ronaldo, caiçara de Ubatuba...

  “Marcelina, uma caiçara adolescente que morava nas cercanias da Praia da Sununga, de repente pareceu aniquilar-se, comendo pouco, sem ânimo para nada. De nada valiam os banhos, benzimentos e remédios da cultura local. Diante da preocupação da mãe e de outras pessoas que gostavam muito dela, ela tentava acalmá-las.

   Dias se passaram, tristes e apreensivos, até que certa madrugada, de seu quarto a mãe escutou soluços e palavras desconexas. ‘Não vá. Não...não quero...espere...’ Ao acordar em lágrimas e vendo a mãe sentada em sua cama, Marcelina se abriu: ‘Sabe a história daquele bicho que mora na Toca da Sununga, que diz que ninguém pode passar por lá sem provocar a sua ira, deixando o mar revolto e impedindo o trabalho dos pescadores? Pois é! O Seo Antero, lá da Praia das Sete Fontes, disse-me que viu, numa noite o tal bicho: do meio pra cima parece o dragão que tem no quadro de São Jorge, o resto do corpo parece de uma cobra. Foi milagre ele não ter sido devorado naquela noite. De lá pra cá eu tenho sempre a impressão que esse bicho me segue. Numa noite, há alguns meses, aconteceu uma coisa bem estranha: o bicho, do jeito que o Seo Antero descreveu, entrou no meu quarto. Eu queria chamar a senhora, mas não consegui soltar a fala, nem correr. De repente... aquela coisa feia se transformou num moço bonito e ficou comigo até o galo cantar três vezes na madrugada. Dessa noite em diante ele tem vindo ficar comigo. Agora mesmo eu estava chorando porque não queria que ele fosse embora. É por isso que eu não tenho vontade de mais nada, a não ser ficar pensando nele’.

  Depois de algum tempo dessa revelação, passando por sua casa um velho monge, a mãe contara os tormentos da filha e de todos os familiares. Era comum naquele tempo desabafar com alguém da Igreja e se sentir aliviado. Na verdade, aquele homem era um padre que revelou: 'o padre José de Anchieta, antes de morrer, teve uma visão que dizia ser tarefa da Ordem dos Jesuítas expulsar o monstro que se abrigava na Toca da Sununga. É por isso que aqui cheguei. Vim nos passos de Anchieta'.
      
  Chegando ao local, o monge, acompanhado dos fiéis católicos do lugar, ergueu os braços num largo sinal da cruz, murmurou sua prece e aspergiu sobre o local a água benta que trazia. Naquele instante, tal como um trovão violento, a água do mar invadiu a toca e abriu um caminho por onde o monstro se foi, num turbilhão de espuma, mar afora.  Desse modo, graças à fé desse religioso, os caiçaras se viram livre daquela maldição”
  

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