Imagine, caro leitor, dois hotéis vizinhos. O primeiro é cinco estrelas, o maior de todos. O hotel ao lado, por sua vez, tem três estrelas. O maior de todos conseguiu a quinta estrela há vinte e quatro anos, está meio parado no tempo, enquanto o vizinho conseguiu sua última estrela há quatro anos, e por pouco não adquiriu mais uma para a constelação neste ano.
Do alto do grande hotel cinco estrelas, os hóspedes percebem que o teto do vizinho é feito de vidro. Dizem eles que o hotel foi feito de forma irregular e que, se não fossem as ajudas externas, o mesmo não teria passado nem do alicerce. Alegam eles que estrelas legítimas precisam ser alcançadas sem qualquer mácula. Acho que o bom entendedor já compreendeu a analogia...
1978: A primeira estrela dos vizinhos foi mesmo conquistada na mão grande, na trapaça. Roubaram o hotel verde-amarelo, que se intitula campeão moral naquela disputa. Concordo em partes. Uma das vagas na final daquele ano era mesmo para ser do Brasil, mas havia a Holanda pela frente. A mesma Holanda que havia nos eliminado em 1974 com algumas reformulações. Logo, apaga-se a primeira estrela dos vizinhos; porém, não dá para cravar que aquela estrela seria nossa.
1986: Em uma das partidas dos vizinhos diante dos ingleses na conquista da segunda estrela deles, Maradona fez um gol de mão, que não foi anulado pelo juiz. Não vejo isso como determinante ao título, mas, como prevalece a máxima de que estrelas legítimas precisam ser conquistadas sem trapaças ou quaisquer tipos de máculas, anulemos também esta conquista argentina.
2022: Na terceira conquista portenha, os hermanos teriam sido supostamente beneficiados com cinco penalidades assinaladas a seu favor durante a competição. Mantendo o padrão de isenção de qualquer benefício de arbitragem a favor, apaguemos também a última conquista hermana, e, logo, eles ficariam sem conquista alguma.
Mas aí, lá no último andar, a gente olha para o próprio teto. Uma imagem holográfica vai mostrando cada uma das nossas cinco estrelas conquistadas...
1958: Primeiro título brasileiro sem contestação alguma. Esta estrela, dentro dos padrões rígidos da ética e da moralidade, é nossa. Incontestável!
1962: Na terceira partida da fase de grupos, diante da Espanha, o Brasil perdia por um a zero. Em um ataque espanhol, Nílton Santos derrubou o atacante adversário dentro da área. Era para ser pênalti. Se seria gol ou não, é outra história, mas a Espanha tinha tudo para abrir dois gols de vantagem e o jogo poderia ter outro desfecho. Mas o defensor brasileiro deu um passo à frente e ludibriou o árbitro, que marcou apenas falta. No final, o Brasil virou o jogo com dois gols de Amarildo, que substituiu Pelé, que havia se contundido em partida anterior. A partida era decisiva para a classificação para a próxima fase, e foi assim que o Brasil seguiu adiante.
Na semifinal contra o Chile, Garrincha revidou as pancadas adversárias e foi expulso. Seria julgado depois disso e provavelmente não jogaria a final diante da Tchecoslováquia. Mas o bandeirinha que alertou o juiz sobre o revide não compareceu ao tribunal desportivo, absolvendo automaticamente o atacante brasileiro, que jogou a final. Anos mais tarde, um árbitro brasileiro disse que recebeu dez mil dólares dos nossos cartolas para fazer com que o uruguaio não aparecesse no julgamento. Houve também pressão do Ministro Tancredo Neves no tribunal da FIFA para que Garrincha fosse absolvido. Eis, então, duas máculas em nossa conquista, apagando nossa segunda estrela.
1970: A melhor seleção de todos os tempos contou com uma ajuda nos bastidores na semifinal diante dos uruguaios. A partida seria na Cidade do México, na altitude, onde a "Celeste Olímpica" já estava acostumada a jogar. Numa manobra orquestrada por João Havelange, a partida mudou para Guadalajara, a sede brasileira. Os uruguaios tiveram que viajar às pressas para o local da partida, surpreendidos pela mudança. O Brasil saiu perdendo para os uruguaios, virando posteriormente. Pelé revidou violentamente as agressões adversárias com uma cotovelada em Fuentes, digna de cartão vermelho, mas o árbitro fez vistas grossas. Ainda bem, pois correríamos o risco de o nosso camisa dez não jogar a final contra a Itália, na qual vencemos. E foi assim que surgiu o primeiro tricampeão da história dos mundiais.
1994: Esta conquista tinha tudo para ser irretocável. Mas estamos falando de ausência de máculas e padrões morais absolutos; então, não dá para esquecer o jogo semifinal contra a Holanda. O Brasil abriu dois a zero no placar, permitindo o empate adversário. No momento mais crucial da partida, Branco cavou uma falta, dando antes um tapa na cara do atacante Overmars. Na sequência, a "bomba santa" de Branco culminou no gol de desempate do Brasil. Ou seja: a mão de Maradona que fez o gol é trapaça, enquanto a bomba soltada após uma reversão de falta é santa. Contraditório. Mas, enfim, foi assim que nos tornamos, até então, a única seleção tetracampeã mundial de futebol.
2002: Na primeira partida, os turcos tiveram muito do que reclamar com a arbitragem. Abriram o placar, mas o Brasil empatou. No segundo gol brasileiro, Luizão foi derrubado fora da área, e o juiz marcou pênalti, além de ter expulsado um jogador turco. Nos acréscimos, Hakan Ünsal chutou uma bola na direção de Rivaldo, que simulou ter sido atingido no rosto. Nova expulsão. O Brasil venceu por dois a um.
Contudo, é na partida das oitavas de final que está o grande favorecimento ao Brasil nesta Copa. Ainda quando o jogo estava empatado em zero a zero, a Bélgica fez um gol legítimo, mal anulado pelo árbitro. Com a Bélgica saindo à frente do placar, o desfecho daquela partida dificílima poderia ter sido outro. Mas o Brasil venceu por dois a zero e seguiu adiante, rumo ao pentacampeonato.
O holograma revelador se apaga diante do nosso teto, que também é de vidro. As pessoas que estão no último andar do hotel cinco estrelas percebem que, se as três estrelas adversárias têm suas irregularidades, quatro das nossas cinco também têm. Seguindo os padrões rígidos de ética e moral imaculados, o Brasil teria um título, e a Argentina, nenhum. Melhor deixar do jeito que está! Cada qual com seu telhado de vidro. Brasil, o maior de todos!
* O Eldoradense

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