15 de jul. de 2026

Conto: "Aconteceu em Pontes Vergara"

 

  



  Pontes Vergara é uma destas cidades pequeninas, distante das capitais, simpática e charmosa como boa parte das cidades do interior do Brasil. Leva este nome em homenagem ao seu fundador, um antigo integrante da comitiva do famoso bandeirante Raposo Tavares. Reza a lenda que Pontes Vergara, ao passar por aquela região do oeste paulista, não quis prosseguir com a comitiva. Disse que ali fincaria suas raízes, pois, em sonho, na noite anterior, ouvira do anjo Gabriel que assim o fizesse, com o intuito de formar um povoado. Raposo Tavares ficou uma fera, pensou em punir o desertor com severidade máxima, mas repensou a decisão e seguiu em sua marcha para o ocidente brasileiro.

  Mais de um século depois, a cidade continuaria sua rotina pacata, a não ser por um fenômeno inusitado: o roubo de imagens no cemitério — uma tremenda falta de respeito aos que se foram e aos que ainda ficam. Roubaram um arcanjo de bronze, um querubim esculpido em mármore Carrara e um São Bento de granito. Foi um escândalo!

  A polícia local não conseguiu solucionar o crime, mas aconselhou o prefeito a instalar um circuito de câmeras de vigilância na necrópole, com o intuito de coibir futuros furtos. A prefeitura espalhou a notícia pela cidade e colocou várias placas ao redor do campo santo: "Sorria, você está sendo filmado". Logicamente, isso foi motivo de piada, pois, se existe um lugar que não foi feito para sorrir, este lugar é o cemitério.

  Dois funcionários da prefeitura faziam a vigilância noturna remota do lugar, em frente a quatro monitores. Trabalhavam em noites alternadas, cuidando do normal. O problema deu-se na primeira semana de funcionamento das câmeras, quando o prefeito resolveu, por conta própria, fazer um teste de eficiência dos seus vigilantes.

  Perto da meia-noite, dirigiu-se ao cemitério. Pulou o muro sem ser visto, arrancou um lençol da mochila e resolveu perambular pelo campo santo, fazendo questão de aparecer em frente à câmera um, considerada a principal do circuito.

  Foi o suficiente para Alcebíades, o vigilante de plantão, tomar um baita susto enquanto fumava seu cigarro e bebia café. Cardíaco, não aguentou o baque. Foi encontrado pela manhã, morto e com um semblante visível de perplexidade no rosto. O prefeito guardou o segredo para si, mas deduziu que tinha um circuito interno de vigilância eficaz e funcionários atentos. Alcebíades foi substituído, é claro, pois agora se tornara um número perdido, uma baixa no corpo funcional, passando a residir funestamente no local onde fora incumbido de vigiar.

  O prefeito, por sua vez, foi retirado do cargo por motivos psiquiátricos. Está em tratamento contínuo no CAPS e, toda noite, acorda atordoado com Alcebíades puxando seus lençóis e dizendo que "descobriu" quem era o fantasma que rondava o cemitério na noite de sua própria morte...

    

* O Eldoradense







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