19 de ago. de 2026

Crônica: "A casa da rua Henrique Dias"

 



A casa da Rua Henrique Dias

 

   Nunca habitei aquele endereço, mas é como se tivesse, pois frequentei-o bastante. Foi, de fato, a casa de muitos da minha família paterna: avós e tios, além de um bocado de primos. Residência modesta, situada no Parque São Francisco, na Rua Henrique Dias. Construída em madeira, com quintal grande, que tinha uma outra casinha, ainda menor, ao fundo.

  A minha mais remota lembrança é datada do ano de 1980: fiquei sob os cuidados das minhas tias, enquanto minha mãe estava internada para dar à luz ao meu irmão. Muita gente não acredita, mas, com dois anos e meio de idade, eu me lembro disso. Minha mãe chegando de táxi com meu irmão nos braços e eu, com ciúmes de filho único que perdeu o trono.

  Outras tantas lembranças se sucederam: meu avô, já doente, arrancando lascas de rapadura com um facão para que eu e meu irmão saboreássemos. A doce lembrança foi sucedida pelo primeiro amargor nas minhas memórias: em 1983, meu avô faleceu, e eu vivi o primeiro luto, ainda que as compreensões de infância fossem limitadas a respeito do assunto.

  Contudo, havia muita gente naquela casa: minha avó, a tia Tica com três dos seus quatro filhos e o tio André com três dos cinco. Na pequena casa do fundo, a minha tia Rosa morava com o marido. Onze pessoas, fora a movimentação de outros primos e tantos outros colegas.

  Lembro-me do entra e sai intenso, gente saindo e chegando da escola, do trabalho, o som das máquinas de costura das minhas tias funcionando sem parar, a cozinha exalando os aromas do café da manhã, do almoço, do lanche da tarde, do jantar. Dos gritos do papagaio, que odiava meu irmão por atormentá-lo, das clientes das minhas tias chegando em seus carros para provar os vestidos feitos sob medida. A jabuticabeira na parte baixa do quintal, o abacateiro na parte de cima, a casa de pó de serra, o fogão a lenha, a criação de patos, os almoços nas festas de fim de ano.

  O converseiro, a televisão ligada à noite na sala com a luz apagada, o rádio funcionando durante o dia, as discussões sadias sobre futebol entre as metades corintiana e santista da família, os meus primos jogando pelada na rua. Lembro-me de ler os gibis do meu primo Edmilson durante a infância e, mais tarde, na adolescência, devorar a Folha de S.Paulo e a revista Veja, que meu primo Nei, já trabalhando no Fórum, assinava.

  A casa, que era lotada, recebia visitantes e parentes de São Paulo e Cuiabá Paulista, mostrando que, tal qual coração de mãe, sempre cabiam mais alguns. Era um ambiente carregado de afeto e acolhimento e, quando dois primos – filhos do tio André – vieram de São Paulo visitar os familiares pela primeira vez, não titubearam: quiseram ficar ali e passaram a habitar também a casa!

  Aos poucos, na segunda metade da década de noventa, o cenário foi mudando. Alguns primos buscaram seus destinos em outras cidades, outros se casaram, meu tio André comprou a própria casa e mudou-se para o Eldorado com os filhos, minha avó Angélica faleceu. Quando passei a frequentar a universidade, deixava a minha moto na garagem da casa e seguia a pé ao posto de combustíveis da Tiradentes para tomar o ônibus com destino a Presidente Prudente. Naquela ocasião, moravam apenas meu primo Nélson e minha tia Tica na casa de baixo, e minha tia Rosa com o marido na casa de cima.

  Gradualmente, o tempo foi se encarregando de diminuir os habitantes daquele endereço. Em 2004, meu primo Nélson se casou, e o quintal passou a se mostrar imenso para três pessoas em duas casas. Há aproximadamente seis anos, minha tia Rosa ficou viúva, e aí ficaram apenas as duas irmãs, já idosas, em duas casas, no quintal que, então, passou a mostrar-se gigantesco e silencioso.

  Duas irmãs inseparáveis, se não fosse a intransigência do tempo e da morte. Há pouco mais de um ano, minha tia Tica faleceu, e certamente foi um baque muito forte para a minha tia Rosa, que não teve filhos, mas foi uma grande mãe para todos os sobrinhos. Ontem, aquele endereço outrora apinhado de gente testemunhou o último suspiro da única remanescente. No Jardim Celestial foi plantada uma nova Rosa: doce, serena, meiga, amorosa.

  É, tempo, você venceu, sempre vence e vencerá. A energia física daquela casa foi se esvaziando aos poucos, e agora são apenas ecos e lembranças nas minhas memórias. E até isso um dia você levará, quando meu coração parar de bater e eu não estiver mais por aqui. Consola-me saber que, neste momento, meus avós, meu pai e todos os meus tios se reencontraram, repovoando uma nova casa, tão apinhada quanto aquela da Rua Henrique Dias. Porém, agora, em outro plano, supostamente eterno. E lá, o cenário muda um pouco: você apenas passa, sem subtrair nada de ninguém...

 

O Eldoradense

   


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