A casa da Rua Henrique
Dias
Nunca habitei aquele endereço, mas é como se
tivesse, pois frequentei-o bastante. Foi, de fato, a casa de muitos da minha
família paterna: avós e tios, além de um bocado de primos. Residência modesta,
situada no Parque São Francisco, na Rua Henrique Dias. Construída em madeira,
com quintal grande, que tinha uma outra casinha, ainda menor, ao fundo.
A minha mais remota lembrança é datada do ano
de 1980: fiquei sob os cuidados das minhas tias, enquanto minha mãe estava
internada para dar à luz ao meu irmão. Muita gente não acredita, mas, com dois
anos e meio de idade, eu me lembro disso. Minha mãe chegando de táxi com meu
irmão nos braços e eu, com ciúmes de filho único que perdeu o trono.
Outras tantas lembranças se sucederam: meu
avô, já doente, arrancando lascas de rapadura com um facão para que eu e meu
irmão saboreássemos. A doce lembrança foi sucedida pelo primeiro amargor nas
minhas memórias: em 1983, meu avô faleceu, e eu vivi o primeiro luto, ainda que
as compreensões de infância fossem limitadas a respeito do assunto.
Contudo, havia muita gente naquela casa:
minha avó, a tia Tica com três dos seus quatro filhos e o tio André com três
dos cinco. Na pequena casa do fundo, a minha tia Rosa morava com o marido. Onze
pessoas, fora a movimentação de outros primos e tantos outros colegas.
Lembro-me do entra e sai intenso, gente
saindo e chegando da escola, do trabalho, o som das máquinas de costura das
minhas tias funcionando sem parar, a cozinha exalando os aromas do café da
manhã, do almoço, do lanche da tarde, do jantar. Dos gritos do papagaio, que
odiava meu irmão por atormentá-lo, das clientes das minhas tias chegando em
seus carros para provar os vestidos feitos sob medida. A jabuticabeira na parte
baixa do quintal, o abacateiro na parte de cima, a casa de pó de serra, o fogão
a lenha, a criação de patos, os almoços nas festas de fim de ano.
O converseiro, a televisão ligada à noite na
sala com a luz apagada, o rádio funcionando durante o dia, as discussões sadias
sobre futebol entre as metades corintiana e santista da família, os meus primos
jogando pelada na rua. Lembro-me de ler os gibis do meu primo Edmilson durante
a infância e, mais tarde, na adolescência, devorar a Folha de S.Paulo e a
revista Veja, que meu primo Nei, já trabalhando no Fórum, assinava.
A casa, que era lotada, recebia visitantes e
parentes de São Paulo e Cuiabá Paulista, mostrando que, tal qual coração de
mãe, sempre cabiam mais alguns. Era um ambiente carregado de afeto e
acolhimento e, quando dois primos – filhos do tio André – vieram de São Paulo
visitar os familiares pela primeira vez, não titubearam: quiseram ficar ali e
passaram a habitar também a casa!
Aos poucos, na segunda metade da década de
noventa, o cenário foi mudando. Alguns primos buscaram seus destinos em outras
cidades, outros se casaram, meu tio André comprou a própria casa e mudou-se
para o Eldorado com os filhos, minha avó Angélica faleceu. Quando passei a
frequentar a universidade, deixava a minha moto na garagem da casa e seguia a
pé ao posto de combustíveis da Tiradentes para tomar o ônibus com destino a
Presidente Prudente. Naquela ocasião, moravam apenas meu primo Nélson e minha
tia Tica na casa de baixo, e minha tia Rosa com o marido na casa de cima.
Gradualmente, o tempo foi se encarregando de
diminuir os habitantes daquele endereço. Em 2004, meu primo Nélson se casou, e
o quintal passou a se mostrar imenso para três pessoas em duas casas. Há
aproximadamente seis anos, minha tia Rosa ficou viúva, e aí ficaram apenas as
duas irmãs, já idosas, em duas casas, no quintal que, então, passou a
mostrar-se gigantesco e silencioso.
Duas irmãs inseparáveis, se não fosse a
intransigência do tempo e da morte. Há pouco mais de um ano, minha tia Tica
faleceu, e certamente foi um baque muito forte para a minha tia Rosa, que não
teve filhos, mas foi uma grande mãe para todos os sobrinhos. Ontem, aquele
endereço outrora apinhado de gente testemunhou o último suspiro da única
remanescente. No Jardim Celestial foi plantada uma nova Rosa: doce, serena,
meiga, amorosa.
É, tempo, você venceu, sempre vence e
vencerá. A energia física daquela casa foi se esvaziando aos poucos, e agora
são apenas ecos e lembranças nas minhas memórias. E até isso um dia você
levará, quando meu coração parar de bater e eu não estiver mais por aqui.
Consola-me saber que, neste momento, meus avós, meu pai e todos os meus tios se
reencontraram, repovoando uma nova casa, tão apinhada quanto aquela da Rua
Henrique Dias. Porém, agora, em outro plano, supostamente eterno. E lá, o
cenário muda um pouco: você apenas passa, sem subtrair nada de ninguém...
O Eldoradense

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