2026 começou com uma notícia bombástica, no sentido literal e metafórico da palavra: as forças bélicas norte-americanas promoveram uma ação de invasão na Venezuela, capturando o então presidente daquele país, Nicolás Maduro, para ser julgado e, muito provavelmente, condenado em solo estadunidense pela acusação de narcoterrorismo.
É preciso salientar aqui dois pontos distintos. O primeiro é que Maduro não é boa bisca e que todo ditador, golpista ou até mesmo pretenso autocrata merece o destino do julgamento e da prisão. Fato. A democracia, mesmo com todas as suas imperfeições, é a expressão máxima das vontades e dos anseios de um povo. E o povo venezuelano vinha sendo oprimido e subjugado por Maduro. A miséria e a falta de liberdade imperavam no país, que estava sob o terceiro mandato do presidente, eleito em um pleito marcado por falta de transparência e ausência de reconhecimento por parte de várias lideranças internacionais, inclusive do atual presidente do Brasil. Portanto, trata-se do típico caso do sujeito que lidera um país e acredita ser seu dono e que, no fim das contas, de forma legítima ou não, paga por seus atos.
O segundo ponto diz respeito à legitimidade da ação, que, ao que tudo indica, não ocorre nem dentro das leis norte-americanas, muito menos dentro das normas do direito internacional. É claro que esperar que os poderes constituídos venezuelanos destituíssem Maduro seria utópico, já que os mesmos estavam aparelhados e corrompidos pelo ditador. Porém, no que se refere às próprias leis norte-americanas, tal ação necessitava de aprovação do Congresso daquele país, o que não houve. Em relação ao direito internacional, é evidente que a ação fere os princípios da soberania nacional e da autonomia.
Sobre a veracidade da motivação da ação, é preciso aguardar mais um pouco. Maduro foi, de fato, denunciado pelas agências de segurança norte-americanas por supostamente liderar um grande cartel de drogas na Venezuela. E, como o país supostamente envia grandes quantidades de narcóticos para o solo americano, Trump viu-se no direito de comandar tal ação, o que vem sendo amplamente contestado por muitas lideranças nacionais e apoiado por outras.
Dizer que a ação envolve questões ideológicas é a motivação menos provável. Se assim fosse, Cuba já teria sido tomada pelos norte-americanos, e Trump não teria extinguido a maior parte das sobretaxas impostas recentemente ao Brasil, por exemplo. Outra questão envolve os movimentos pós-ação: o presidente norte-americano cogita que, após a transição liderada pelos Estados Unidos, a Venezuela seja governada pela atual vice-presidente chavista, Delcy Rodríguez. Não só fez isso como descartou a possibilidade de passar o bastão para a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado.
A outra vertente sobre a ação — e que é a mais provável — é que os Estados Unidos estejam mais interessados no ouro negro (petróleo) venezuelano do que propriamente em coibir o tráfico do ouro branco (cocaína) daquele país. Já foi dito que as petrolíferas norte-americanas assumirão o controle da extração do mineral em solo venezuelano enquanto o governo interino, sob tutela dos Estados Unidos, perdurar.
Minha opinião a respeito? Trump agiu fora da legalidade, mas isso tende a ficar por isso mesmo, pois há tempos ele vem ignorando quaisquer leis, sejam internas ou externas. Por outro lado, Maduro é merecedor de um destino trágico, pois, como afirmei nos primeiros parágrafos, este é o fim de ditadores, autocratas e pretensos golpistas. Não fará falta alguma, nem deixará qualquer lacuna relevante com sua destituição. Além disso, não é descartada a hipótese de o ditador ser também um narcotraficante internacional.
A compaixão de Trump pelo povo venezuelano e por sua liberdade é equivalente à de Maduro. A mesquinharia e a ambição pela principal commodity daquele país são o que movem tanto o ditador explícito quanto o defensor camuflado da democracia venezuelana em suas ações.
Quanto à postura do atual governo brasileiro, creio que deva ser pragmática. O país acabou de solucionar um imbróglio diplomático com os Estados Unidos, e manifestar-se contra a ação norte-americana poderia abrir margem para interpretações de apoio a Maduro, ainda que sejam coisas bem distintas. Vivemos uma era de propagação da desinformação e de guerra de narrativas e, a meu ver, não compensa correr esse risco. Tal pragmatismo seria, em tese, antiético? Sim. Mas, se tanto o líder norte-americano quanto o venezuelano também agiram de forma antiética, para que se expor desnecessariamente? Se a invasão foi ilegal — e de fato o foi —, que os organismos internacionais se manifestem.
* O Eldoradense
