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22 de jul. de 2026

Crônica: "Tetos de vidro"

    



  Imagine, caro leitor, dois hotéis vizinhos. O primeiro é cinco estrelas, o maior de todos. O hotel ao lado, por sua vez, tem três estrelas. O maior de todos conseguiu a quinta estrela há vinte e quatro anos, está meio parado no tempo, enquanto o vizinho conseguiu sua última estrela há quatro anos, e por pouco não adquiriu mais uma para a constelação neste ano.

  Do alto do grande hotel cinco estrelas, os hóspedes percebem que o teto do vizinho é feito de vidro. Dizem eles que o hotel foi feito de forma irregular e que, se não fossem as ajudas externas, o mesmo não teria passado nem do alicerce. Alegam eles que estrelas legítimas precisam ser alcançadas sem qualquer mácula. Acho que o bom entendedor já compreendeu a analogia...

  1978: A primeira estrela dos vizinhos foi mesmo conquistada na mão grande, na trapaça. Roubaram o hotel verde-amarelo, que se intitula campeão moral naquela disputa. Concordo em partes. Uma das vagas na final daquele ano era mesmo para ser do Brasil, mas havia a Holanda pela frente. A mesma Holanda que havia nos eliminado em 1974 com algumas reformulações. Logo, apaga-se a primeira estrela dos vizinhos; porém, não dá para cravar que aquela estrela seria nossa.

   1986: Em uma das partidas dos vizinhos diante dos ingleses na conquista da segunda estrela deles, Maradona fez um gol de mão, que não foi anulado pelo juiz. Não vejo isso como determinante ao título, mas, como prevalece a máxima de que estrelas legítimas precisam ser conquistadas sem trapaças ou quaisquer tipos de máculas, anulemos também esta conquista argentina.

  2022: Na terceira conquista portenha, os hermanos teriam sido supostamente beneficiados com cinco penalidades assinaladas a seu favor durante a competição. Mantendo o padrão de isenção de qualquer benefício de arbitragem a favor, apaguemos também a última conquista hermana, e, logo, eles ficariam sem conquista alguma.

Mas aí, lá no último andar, a gente olha para o próprio teto. Uma imagem holográfica vai mostrando cada uma das nossas cinco estrelas conquistadas...

  1958: Primeiro título brasileiro sem contestação alguma. Esta estrela, dentro dos padrões rígidos da ética e da moralidade, é nossa. Incontestável!

  1962: Na terceira partida da fase de grupos, diante da Espanha, o Brasil perdia por um a zero. Em um ataque espanhol, Nílton Santos derrubou o atacante adversário dentro da área. Era para ser pênalti. Se seria gol ou não, é outra história, mas a Espanha tinha tudo para abrir dois gols de vantagem e o jogo poderia ter outro desfecho. Mas o defensor brasileiro deu um passo à frente e ludibriou o árbitro, que marcou apenas falta. No final, o Brasil virou o jogo com dois gols de Amarildo, que substituiu Pelé, que havia se contundido em partida anterior. A partida era decisiva para a classificação para a próxima fase, e foi assim que o Brasil seguiu adiante.

  Na semifinal contra o Chile, Garrincha revidou as pancadas adversárias e foi expulso. Seria julgado depois disso e provavelmente não jogaria a final diante da Tchecoslováquia. Mas o bandeirinha que alertou o juiz sobre o revide não compareceu ao tribunal desportivo, absolvendo automaticamente o atacante brasileiro, que jogou a final. Anos mais tarde, um árbitro brasileiro disse que recebeu dez mil dólares dos nossos cartolas para fazer com que o uruguaio não aparecesse no julgamento. Houve também pressão do Ministro Tancredo Neves no tribunal da FIFA para que Garrincha fosse absolvido. Eis, então, duas máculas em nossa conquista, apagando nossa segunda estrela.

  1970: A melhor seleção de todos os tempos contou com uma ajuda nos bastidores na semifinal diante dos uruguaios. A partida seria na Cidade do México, na altitude, onde a "Celeste Olímpica" já estava acostumada a jogar. Numa manobra orquestrada por João Havelange, a partida mudou para Guadalajara, a sede brasileira. Os uruguaios tiveram que viajar às pressas para o local da partida, surpreendidos pela mudança. O Brasil saiu perdendo para os uruguaios, virando posteriormente. Pelé revidou violentamente as agressões adversárias com uma cotovelada em Fuentes, digna de cartão vermelho, mas o árbitro fez vistas grossas. Ainda bem, pois correríamos o risco de o nosso camisa dez não jogar a final contra a Itália, na qual vencemos. E foi assim que surgiu o primeiro tricampeão da história dos mundiais.

  1994: Esta conquista tinha tudo para ser irretocável. Mas estamos falando de ausência de máculas e padrões morais absolutos; então, não dá para esquecer o jogo semifinal contra a Holanda. O Brasil abriu dois a zero no placar, permitindo o empate adversário. No momento mais crucial da partida, Branco cavou uma falta, dando antes um tapa na cara do atacante Overmars. Na sequência, a "bomba santa" de Branco culminou no gol de desempate do Brasil. Ou seja: a mão de Maradona que fez o gol é trapaça, enquanto a bomba soltada após uma reversão de falta é santa. Contraditório. Mas, enfim, foi assim que nos tornamos, até então, a única seleção tetracampeã mundial de futebol.

  2002: Na primeira partida, os turcos tiveram muito do que reclamar com a arbitragem. Abriram o placar, mas o Brasil empatou. No segundo gol brasileiro, Luizão foi derrubado fora da área, e o juiz marcou pênalti, além de ter expulsado um jogador turco. Nos acréscimos, Hakan Ünsal chutou uma bola na direção de Rivaldo, que simulou ter sido atingido no rosto. Nova expulsão. O Brasil venceu por dois a um.

   Contudo, é na partida das oitavas de final que está o grande favorecimento ao Brasil nesta Copa. Ainda quando o jogo estava empatado em zero a zero, a Bélgica fez um gol legítimo, mal anulado pelo árbitro. Com a Bélgica saindo à frente do placar, o desfecho daquela partida dificílima poderia ter sido outro. Mas o Brasil venceu por dois a zero e seguiu adiante, rumo ao pentacampeonato.

  O holograma revelador se apaga diante do nosso teto, que também é de vidro. As pessoas que estão no último andar do hotel cinco estrelas percebem que, se as três estrelas adversárias têm suas irregularidades, quatro das nossas cinco também têm. Seguindo os padrões rígidos de ética e moral imaculados, o Brasil teria um título, e a Argentina, nenhum. Melhor deixar do jeito que está! Cada qual com seu telhado de vidro. Brasil, o maior de todos!

* O Eldoradense           

  

17 de jul. de 2026

Crônica: "O circo de uns é o pão de outros"

     

       

 


  Quem conhece Paraty sabe o quanto aquelas ruas históricas, feitas de pedras, pulsam arte e literatura. Não é à toa que, neste mês de julho, tradicionalmente acontece a FLIP — Festa Literária Internacional de Paraty. Mesmo em épocas distintas ao evento, escritores ainda sem renome procuram abordar turistas com o intuito de serem lidos e venderem dignamente seus escritos. Muitas vezes, são impressos simples, confeccionados com o intuito de propagar o entretenimento e a cultura, alimentando não apenas os sonhos e o ego dos seus autores, mas também alimentando-os no sentido mais literal da palavra. Os livros, vendidos a preços modestos, complementam a renda e ajudam no sustento de famílias, tal qual tantos outros serviços prestados.

    Habitamos um país em que muitos são privados de necessidades básicas. Comer, beber água potável, ter acesso ao saneamento e aos serviços de saúde não são privilégios de todos, infelizmente. É neste cenário, onde muitos não possuem o mínimo, que a cultura e a arte talvez soem como algo supérfluo, luxo, secundário ou 'frescura'.

   Mas a verdade é que uma nação que almeja prosperidade não pode relegar ao segundo plano seus artistas, independentemente de qual arte produzam. É preciso tratar com respeito desde o simples artista de rua ao mais renomado ícone da música. Enquanto alguns complementam a renda com suas singelas performances, outros geram empregos, pois grandes produções artísticas demandam inúmeros profissionais nas mais variadas áreas.

   Quem consome arte é beneficiado pelo entretenimento, que tanto necessitamos para uma boa qualidade de vida, mas que talvez não valorizamos como deveríamos. É o livro a ser lido, a música a ser ouvida, a série ou a novela que assistimos, ou até mesmo aquele quadro que embeleza a sala. O que, para o consumidor, significa entretenimento, beleza e alento, para quem produz arte significa oportunidades e o pão de cada dia.

   Fiquemos atentos ao momento atual, pois, no afã de defender ferrenhamente o que consideramos prioridades, muitos estão discriminando os artistas e propagando, inclusive, informações falsas a respeito das leis que incentivam a cultura e a arte. Façamos esta reflexão, pois o que é circo para alguns significa o pão de tantos outros. Se o pão é necessário para a sobrevivência, o circo é necessário para a vida, ainda que muitos discordem ou não tenham percebido. 


* O Eldoradense 

9 de jul. de 2026

Crônica: "Bets"

 

 


 Bons tempos em que se jogava "bets" nas ruas. Bastavam quatro jogadores, duas latas de óleo e dois tacos improvisados - que muitas vezes eram cabos de vassouras - e estava configurada uma diversão sadia que marcou época nas ruas suburbanas de terra ou asfalto, fazendo a alegria de muitas crianças e adolescentes de outrora. O jogo em questão tem este nome por uma derivação da palavra inglesa "bat", que na sua tradução para a  língua portuguesa, quer dizer "taco" ou "bastão". 

   Hoje, quando se fala em "bets", creio que só os "quarenta mais" irão se lembrar da brincadeira romântica dos bastões e latas. O termo, é bem verdade, ainda está ligado ao jogo, porém, a uma diversão bem menos sadia e que envolve uma quantidade bem maior de pessoas, que, conectadas ao mundo digital, fazem suas apostas atreladas aos mais variados esportes. Verdadeiros cassinos online que adentram os cômodos do mais humilde casebre às mais requintadas mansões. 

     A psiquiatria revela que o efeito viciante dos jogos de azar no cérebro do apostador pode ser similar ao das drogas, causando uma dependência também patológica, com potencial de arruinar a vida não só do indivíduo, como da família. Há inúmeros relatos de pessoas que estão deixando suas vidas de lado, mergulhadas na ilusão do suposto "dinheiro fácil" que as bets podem proporcionar.

      E elas estão aí: Patrocinando emissoras, atletas, clubes, eventos esportivos. Há também vários casos de resultados de partidas forjados e atletas envolvidos em esquemas de apostas, comprometendo um ambiente que deveria estar atrelado à saúde e ao bom entretenimento. 

        E é claro que elas vieram para ficar, pois além de ser um fenômeno de difícil controle, exercê-lo certamente iria contrariar interesses financeiros poderosíssimos. Mas talvez um primeiro passo seria proibir os patrocínios e propagandas destas empresas a quaisquer ligações com o esporte, assim como fizeram com as empresas fabricantes de cigarros em um passado não muito distante. Afinal, o objetivo do esporte é promover saúde, bem estar, entretenimento saudável e qualidade de vida. E as tais bets contemporâneas não proporcionam nada disso, ao contrário da inocente e lúdica brincadeira que envolvia tacos, latas de óleo e quatro entusiasmados participantes...


* O Eldoradense

14 de jan. de 2026

Crônica: "O mundo tá esquisito!"


 Tenho um grande amigo que visito com certa periodicidade e quando o faço, sempre conversamos sobre o cotidiano: Alguns assuntos pessoais, geralmente envolvendo a profissão em comum, futebol, e muita, muita política. O curioso é que em relação ao último item, a política nacional tem ficado de lado, e cada vez mais, falamos sobre a conjuntura internacional. Como não somos jornalistas ou especialistas no assunto, chegamos a uma conclusão simplória, mas ao meu ver, cirúrgica: "O mundo tá esquisito".

    Tá, eu sei que o mundo já começou esquisito e sempre o foi: Independente de Criacionismo ou Evolucionismo, é esquisito. Seja maçã proibida ou Big Bang, algo que começou através de um pecado ou de uma explosão, convenhamos, não pode mesmo se manter em estado harmônico. E quando os pecados se misturam com as explosões, aí a esquisitice ganha contornos exponenciais. E é o que está acontecendo, pois historicamente, Grandes Guerras são precedidas por vários conflitos menores.

      Eu adoraria dizer que eu poderia estar exagerando e que talvez possa parecer sensacionalismo da minha parte, mas, a se considerar que hoje temos três grandes potências mundiais babando por territórios na cobiça imperialista, pode ser que o globo esteja se transformando num grande tabuleiro de WAR. Putin querendo parte da Ucrânia, China ameaçando Taiwan, Estados Unidos invadindo a Venezuela, atacando Síria e já prometendo pegar o Irã na hora do recreio. É, tá meio tenso o negócio. 

       A ONU, criada pós Segunda Guerra Mundial com o intuito de manter a paz através das leis do direito internacional, nunca foi tão avacalhada: Tá parecendo aquela mãe omissa que vê os filhos fazendo arte e não ultrapassa os limites das advertências verbais. "Trump, ai ai ai! Não faz isso, Putin! Xi... não mexe com a irmãzinha menor!"

    É, tá esquisito! Pode ser que as grandes potências imperialistas fatiem o mundo em três partes e venham e se impor de forma econômica, cada qual com suas zonas de influência. Os Estados Unidos dando as cartas nas Américas, a Rússia na Europa Oriental, e a China, em grande parte da Ásia. O problema é a possibilidade do expansionismo gerar conflito de interesses tamanho a ponto de desencadear uma Terceira Grande Guerra Mundial. Como eu disse, pode parecer exagero, mas nunca senti tanto cheiro iminente de pólvora. A ganância é tão tentadora quanto uma maçã proibida, e as explosões do início, também podem marcar o fim...


* O Eldoradense

28 de jul. de 2025

Crônica: "A febre do Morango do amor"

  



  Eis que um assunto recente e banal tornou-se tão ou mais propagado  que as tarifas do Trump ou a tornozeleira do Bolsonaro: Refiro-me ao tal "Morango do amor" iguaria que atualmente é febre nas confeitarias e cozinhas afora. Tenho lá minhas razões para não acreditar que o tal doce veio para ficar, sendo mais um meme destes efêmeros, voláteis, que somem na mesma velocidade que surgem. Taí! A novidade frutífero adocidada deveria chamar-se "Morango da paixão",  já que terá a durabilidade de um amor de verão ou de uma paixonite voraz,  repentina.

      Certamente a tal onda tem muito a ver com a cor vermelha e intensa da fruta, potencializada pelo brilho sedutor da calda adocicada. E aí, os olhos curiosos emitem estímulos para o cérebro, que, por sua vez, se comunica com as papilas gustativas salivantes, tornando um pequeno doce algo viral, febril, desejável.

           Minha percepção prévia de que o "Morango do amor" será algo passageiro baseia-se em  duas experiências pessoais do passado: A primeira aconteceu na infância, quando vi em alguma propaganda televisiva, alguém saboreando um morango. Fiquei com muita vontade de experimentar a fruta, que, na década de 80, era rara de se encontrar. E sabe como é: Criança com vontade de comer algo pode ficar febril, portanto, não é bom arriscar. Dei um trabalho danado para o meu pai, que, não sei onde, nem como, acabou encontrando um morango. Na primeira mordida, a decepção com o azedume da fruta. Porém, envergonhado pelo transtorno, fingi que o tal morango estava delicioso. 

      A segunda experiência que me faz sugerir que o "Morango do amor" é algo passageiro, não é pautada no paladar, nas sim, na audição. Nos anos 2000, uma música chamada "Morango do Nordeste" tornou-se hit nas rádios brasileiras, sendo interpretada por quase todo mundo, nos mais variados gêneros. Tinha "Morango do Nordeste" em pagode, sertanejo, forró. Não me surpreenderia se fosse cantada também pelo Pavarotti ou pelo Sepultura. Enfim, coisa de impregnar os tímpanos. Lembro-me de uma viagem que fiz com meu irmão para Aparecida: Tocou "Morango do nordeste" no ônibus, no hotel, no restaurante, no comércio ambulante da cidade. Pensei comigo: Só falta tocarem isso na Basílica, durante a missa! Felizmente, a tal heresia imaginária não aconteceu. "Morango do Nordeste" marcou uma época, mas não tornou-se atemporal, está anos luz de ser comparada a qualquer clássico dos Beatles, do Roberto ou do Raul. 

      Desacredito que o tal "Morango do amor" veio para ficar, como tantos outros doces famosos na culinária brasileira. Não terá a longevidade das cocadas, dos doces de leite ou abóbora, quiçá das  paçocas. Arrisco dizer que não vai superar nem mesmo sua precursora, a "Maçã do amor", esta sim, robusta, capaz de saciar tanto a fome quanto a curiosidade. Não veremos Morangos do amor nem na Feira de Mangaio, muito menos, no tabuleiro da baiana.  

        Aliás, seja sincero: Você consegue imaginar a Eva oferecendo um morango para Adão, numa versão repaginada de Gênesis? A fruta é tão pequena que, se assim fosse, Deus nem consideraria pecado, nem expulsaria o casal do Jardim do Éden, e portanto, não existiria a humanidade para transformar o mimo em meme. Seria um gesto efêmero, repentino, similar ao "Vai ser bom, não foi?",  se é que me entendem... 


* O Eldoradense

18 de jul. de 2025

Crônica: "Os políticos deveriam saber jogar xadrez"

  



   Antes de argumentar o porquê do título, o primeiro parágrafo do texto deve, primeiro, explicar as origens do jogo de xadrez, cujas versões variam muito quanto à data e a localização. Porém, a mais difundida data do século VI, em que o jogo de tabuleiro deriva de um outro, chamado "Chaturanga", oriundo da Índia. A partir deste, houve adaptações ocorridas desde o Oriente Médio até a Europa, culminando nos moldes e jogabilidade atuais.

    Dito isso, o que parece absurdo e  irônico - e de fato, é - saber jogar xadrez bem que poderia ser implementado como pré requisito para os indivíduos que ambicionam se tornar uma liderança política, principalmente no executivo, nas mais diferentes esferas. O xadrez requer concentração, planejamento, organização, visão aguçada e antecipada em relação aos movimentos, e principalmente, racionalidade.

     O que vemos hoje na verdade em muitos líderes políticos atuais é exatamente o contrário: Falta de planejamento e organização, apego à imprevisibilidade e improviso, visão limitada, restrita ao curto prazo, e uma passionalidade visceral, cheia de blefes e truculência. "Truculência", é isso! O perfil  de boa parte dos políticos atuais está mais atrelado ao jogo de truco do que ao racional e sofisticado xadrez: Grita-se, blefa-se, intimida-se, marcam-se as cartas de forma desonesta, e na hora que o jogo atinge temperaturas de clima equatorial, adversários chamam uns aos outros de "ladrão". Tudo vira uma casa da sogra, da mãe Joana, e aí, peço perdão para todas as sogras e todas as Joanas. Para as sogras chamadas Joana, o pedido de perdão é redobrado. 

        No jogo de xadrez, encurrala-se o adversário de forma meticulosa, elegante, silenciosa, coordenada, planejada, cerebral, antevendo os próprios ataques e possíveis contra-ataques. Não há muito espaço para blefes, muito menos, truques.  Se o enxadrista o faz com desespero, descoordenação, improviso e irracionalidade, acontece algo surpreendente: De repente as coisas mudam de lugar, e quem perdeu, pode ganhar, como diria o Paulo Ricardo, que não sei se joga xadrez, nem truco, mas canta pra caramba...

* O Eldoradense    

       

14 de jul. de 2025

Crônica: "A final da Copa Mundial de clubes e um pouco de história"

     


 Ontem, em Nova Jersey, foi realizada a primeira final de Copa do Mundo de clubes. No embate de noventa minutos, dois times de países que protagonizaram a Guerra dos cem anos, que na verdade, durou cento e dezesseis: O francês PSG e o inglês Chelsea. Dois países separados pelo canal da mancha, que possuem uma rivalidade histórica, talvez amainada pelo tempo e pelo túnel submarino chamado Eurotunel, que liga o sul da Inglaterra ao norte da França.

     Os povo inglês tem no seu inconsciente coletivo a ideia de que o francês é arrogante. Não sei se faz sentido, mas muita gente disse que o PSG entrou para a final de "salto alto" e foi surpreendido pelos ingleses, tal qual Napoleão, na Batalha de Waterloo. Perdeu de três, e só não perdeu de quatro, tal qual Napoleão dizem ter perdido a guerra, porque um atacante do time inglês quis driblar o goleiro com bola e tudo e não teve sucesso.

    A expressão "na posição que Napoleão perdeu a guerra" só existe na língua portuguesa, e não há nada comprovado que o imperador francês perdeu a guerra engatinhando. Dizem que os portugueses criaram a expressão porque nutriam uma antipatia histórica pelo "Napô", por conta do Bloqueio continental imposto pela França na Europa, um tipo de sanção econômica francesa em todo o continente para ferrar com os ingleses, principalmente. O problema é que Portugal mantinha muitos negócios com os ingleses, e acabaram perdendo grana com o bloqueio. Como se não bastasse, Napoleão invadiu o país lusitano, fazendo com que toda a família real viesse corrida para a nossa pátria amada Brasil, então, colônia, na época.

  Nós, brasileiros, convenhamos, futebolisticamente falando, nutrimos nossa antipatia histórica pelo futebol francês: Desde que eu me entendo por gente, os caras nos derrotaram em três Copas do Mundo. Em 1986, Zico perdeu pênalti no tempo normal, o jogo terminou empatado e foi decidido nos pênaltis a favor dos caras. Em 2006, Roberto Carlos inventou de arrumar a meia durante um escanteio e o Henry nos mandou de volta pra casa. E em 1998, numa final desastrosa, Ronaldo teve uma convulsão que contagiou negativamente todo o grupo. Três a zero, fora o baile. Convulsões não são contagiosas, eu sei, mas neste caso específico, foi. E como foi!

     Porém, em relação aos dois clubes que fizeram a final ontem, o inglês Chelsea era o grande algoz histórico de times brasileiros: Já havia feito uma final com o Palmeiras, sagrando-se campeão. Neste ano, eliminou o verdão nas quartas e o Fluminense em uma das semifinais. Perdeu para o Flamengo, é bem verdade, na fase de grupos, o que não atrapalhou a classificação posterior.

     Curiosamente, o Chelsea perdeu uma única final para um clube brasileiro: Em 2012, para o Corinthians, último campeão mundial sul-americano. Talvez isso tenha ocorrido porque o Corinthians, apesar de ser brasileiro, tem o nome inspirado em um clube homônimo inglês, e isso possa ter servido de antídoto, vai saber! É surreal pensar que o clube do "bando de loucos" tenha o nome inspirado em um um time do  país dos lordes. Coisas do futebol!

      Na plateia da final, Donald Trump, que apesar de ser presidente de um país que já foi colônia inglesa, anda criando tretas econômicas com meio mundo, tal qual o francês Napoleão Bonaparte, durante o Bloqueio continental. Coisas da política e da economia!


* O Eldoradense

        

      

19 de mai. de 2025

Crônica: "Festa dos anos 80"

    



  Há um evento que vem acontecendo em Presidente Venceslau faz algum tempo, e com uma proposta interessante: Noites dançantes que remetem à década de 80, uma das mais prósperas, ao meu ver, musicalmente falando, tanto em nível nacional, quanto internacional. A experiência pode ser objetiva, apenas mais um baile para os frequentadores assíduos, e para os mais esporádicos, pode ter uma característica peculiar, extrassensorial, como se ondas sônicas musicais tragassem o indivíduo para um túnel do tempo numa direção retrógrada no melhor sentido da palavra: o do resgate momentâneo de uma parte da vida, cheio de sonhos e de vitalidade, com um sabor adocicado de nostalgia. 

    Particularmente, sou do tipo de frequentador raríssimo. Desde 1999, não pisava os pés no salão  do Venceslau Clube, quando na ocasião, comprei um ingresso para o baile dos atiradores do Tiro de Guerra, pois meu irmão, na época, serviu a Pátria amada, ainda que todo mundo cobre sua luz.

      Adentrei o ambiente, o túnel retrô do tempo escurecido, com sua névoa especial, ondas sônicas contagiantes orquestradas por um DJ com vários anos de estrada musical e conhecimento de causa: o radialista Mivaldo Rodrigues.

      Cheguei sem muitas expectativas, confesso. Não pelo baile em si, mas por ser um cara comedido, introspectivo. Mas, no balanço das horas, tudo pode mudar: Um drink, que pode ser uma caipirinha ou cuba libre, tendo, na vitrola, "whisky à go go". Sim, é bom beber uns tragos para ser tragado de forma mais eficiente pelo túnel do tempo!

      E toca Dire Straits, Pink Floyd, Engenheiros, Raul. Eu, que sem beber um pouco, ficaria na mesa apenas curtindo as músicas, danço com a minha namorada tendo a desenvoltura de um boneco de maracatu, movido pela caipirinha alucinógena.

       Busquei depois, uma lata de cerveja e encontrei um amigo de longa data. Dou-lhe um abraço e vejo posteriormente que está com a esposa. Casal que eu vi dando os primeiros passos no relacionamento há décadas, nas antigas brincadeiras dançantes do Venceslau Clube do centro de Presidente Venceslau. Algo bonito de se ver, mostrando que se o público não foi expressivo numericamente falando, foi familiar, sadio, respeitoso, com o intuito único e objetivo de reviver momentos inesquecíveis. 

    É, a experiência extrassensorial foi nostálgica, hipnótica, única. Fui embora com a sensação de quem tivesse sintonizado um radinho de pilha e posteriormente, dormido numa sonífera ilha, descansando os olhos, sossegado a boca e preenchido por uma luz revigorante.

   Parabéns ao DJ Mivaldo Rodrigues pela qualidade da seleção musical e pela condução da viagem no túnel sônico do tempo. Iniciemos a semana voltando à realidade da era da internet, com suas músicas comerciais, empobrecidas na letra e na melodia. Mas é bom saber que de vez em quando, dá para encontrar, lá no fundo do baú, um bilhete de viagem de volta ao passado. O destino? Um paraíso musical que só quem vivenciou e ouviu sabe o quanto foi bom...

 * O Eldoradense     

     

28 de mar. de 2025

Crônica: "A corneta"

   



Ontem, de manhã, a primeira coisa que visualizei na internet foi uma vídeo enviado por um amigo através do aplicativo de mensagens do Facebook: Nele, o Messias cedia uma entrevista à vários repórteres, e, durante sua fala, eis que um trompetista começa a soprar a "marcha fúnebre". 

    Justiça seja feita, O Messias pareceu lidar muito bem com o fato. Deu um sorriso -amarelo, é bem verdade- mas mostrou-se emocionalmente estável mediante ao som que mesclava o funesto com o sarcástico. 

    É fato que trompete não é corneta. Certa vez, eu disse que adorava o músico Ray Connif. Um amigo - de longa data, até os dias atuais - "cornetou" meu gosto músical dizendo a seguinte pérola: "Ah, aquele corneteiro!?" Ri muito da sua cornetada! Porém, como são instrumentos que possuem alguma semelhança, incluo-os no mesmo pacote de metáforas para fazer a analogia à crítica, ao sarcasmo, à zombaria. E se tem uma coisa que boa parte dos escritores -amadores ou profissionais - faz, é exercer o ato de cornetar: Seja de forma sutil, explícita, ou até mesmo, ofensiva.

       Corneto, logo sou cornetado. É causa e consequência. Nas minhas páginas e redes sociais, exerço meu direito à cornetada e tolero as réplicas em tom também corneteiro. Na maioria das vezes, ignoro, e, em alguns poucos casos, respondo, porém, sem espaço para ofensa. Em uma única vez, bloqueei alguém que se excedeu escrevendo palavra de baixo calão em ofensa mais que explícita. Não me arrependo, diga-se de passagem. Aliás, o que tem de cristão conservador adotando vocabulário de fazer inveja à Dercy Gonçalves, não está no gibi. A impressão é que o cara lê uma página da Bíblia, outra do Bocage. 

        Há aqueles, talvez seres superiores, que faziam da corneta um grande motivacional, melhorando a performance. Muitos dizem que assim era Pelé, quando a torcida adversária resolvia cornetá-lo das arquibancadas. Eu não chego a tanto, mas ignorar as cornetadas e saber lidar com elas, já é um estágio mais avançado que a desestabilização emocional e o revide irracional, deselegante.

        Cornetemos-nos! Zombemos, sejamos sarcásticos, façamos críticas, sejamos criticados. Que a corneta da democracia prevaleça ante à corneta dos regimes de exceção atrelados aos quartéis. Ah, pra finalizar, reitero o apreço pela reação do Messias diante da provocação sonora do trompetista. Este foi um dos pouquíssimos elogios que eu fiz ao ex-presidente. O resto foi cornetada...

* O Eldoradense

2 de set. de 2023

Crônica: "Carta para Venceslau"

 



  Noventa e sete anos, hein? Aos olhos de quem nasceu aqui e viu suas mudanças, parece muito, mas se considerarmos tantas outras Brasil afora, és jovem. Nasci nos teus braços e confesso que nestes meus 45 anos de vida, acho seu abraço caloroso demais. Um tanto quanto exagerado, eu diria. Quando chega dezembro, então, parece que você quer sufocar a todos nós, de tanto calor. Não sei se é a tua geografia ou teu espírito natalino. Mas sabe? Você bem que poderia ter dito àqueles nossos irmãos primogênitos - a maioria já falecida -  para não terem devastado tanto o perobal de outrora. Enfim, não posso culpar-te nem culpá-los, outros tempos, outras épocas, outras mentalidades. Mas se o perobal tivesse sido preservado, o clima entre nós seria um pouco melhor, mais ameno, creio eu. Não é um metáfora, pois me dou muito bem contigo, graças à Deus. O parágrafo é estritamente literal e meteorológico.

  Não tenho metade da sua idade, e talvez, por isso, às vezes, não te compreendo muito bem. Confesso que minha visão de mundo destoa quase que totalmente de todos os outros filhos que criaste, mas, mesmo assim, amo você e meus irmãos. Afinal, nas alegrias e tristezas da minha vida venceslauense, eram vocês que estavam ao meu lado. Também pudera! Nascido e criado aqui, não poderia ser diferente, e, se o destino não pregar peças, meu sono eterno será sob teu seio.

     Já pensei sim em habitar outras paragens. Por favor, não considere traição, insatisfação ou coisa do tipo. É que sou curioso por natureza, e já me imaginei tomando banho no rio Paraná todos os dias, na casa daquela vizinha ribeirinha que podemos chamar carinhosamente de tia. Já tive planos de ir para longe, pular sete ondas de águas salinas da costa litorânea no fim dos meus dias.

       Porém, às vezes penso que as águas também salinas derramariam no rosto, em forma de saudade, se isso se concretizar um dia. E quando penso nisso, "quieto o facho!". Teria saudades de tudo o que vivi e ainda vivo, das raízes, da família, das pessoas que aprendi a amar, da conversa na varanda da casa do melhor amigo. Acho que teria saudades até do seu perfil conservador, com o qual ainda sou desabituado, tal qual do seu incômodo abraço de 35 graus centígrados na sombra de uma das tuas praças aconchegantes.

          Parabéns por seus 97 anos. Se errei contigo em algum aspecto, acredite, não é proposital. Te amo muito, à minha maneira, e sei que seus outros filhos também a amam conforme suas visões particulares de mundo. Sei também que você ama a todos, pois toda mãe ama seus filhos incondicionalmente, independente das diferenças entre si. Aproveite seu aniversário da melhor forma possível, aproveite seu dia. Parabenizo-te com toda a sinceridade sob o ventilador de teto, tentando amenizar seu abraço de inverno com calor de verão. Parabéns, te amo!


* O Eldoradense

      

1 de fev. de 2023

Crônica: Diário de um detento (Da Papuda)

 


   Querido diário. Hoje inicio meus registros cotidianos na condição de preso político aqui na Papuda, pois futuramente, quando o Brasil estiver livre do comunismo, vou querer publicar um livro relatando minha experiência heroica e patriótica.

    Meu nome é Policarpo. O nome, segundo o meu pai, é em homenagem a um personagem nacionalista de um tal de Lima Barreto, escritor de um livro chamado "Triste fim de Policarpo Quaresma". Não li o livro, pois eu prefiro ler postagens de aplicativos de mensagens e redes sociais. É uma forma íntima de fugir da manipulação da grande mídia esquerdista deste nosso país. Mas enfim, sei que o tal Policarpo era extremamente nacionalista, então, me identifico com ele. 

  Além de nacionalista, sou cristão, conservador e armamentista. E é por isso que estou aqui, pois os comunistas se infiltraram na suprema corte e estão punindo os cidadãos de bem que lutam por liberdade. Sim, a gente quis fazer uma manifestação pacífica em Brasília, mas os comunistas infiltrados quebraram tudo e sobrou para mim, um pacato cidadão... da civilização!

      Mas todo o sofrimento não será em vão. Sei que o nosso capitão está mobilizando alianças internacionais lá dos Estados Unidos para que todas as injustas muralhas do autoritarismo comunista venham a ruir, e todo humilhado será exaltado. Isso é Bíblico!

        Ontem um carcereiro me serviu macarrão, salsicha e frango empanado industrializado. Estão testando nossa resistência, ferindo nossa dignidade. Afinal, onde estão os direitos humanos nestas horas? Ah, o médico da unidade prisional me receitou uns psicotrópicos, mas isso é para me dopar e me tornar um detento alienado. Não vou ceder, estou cuspindo os comprimidos na privada da cela. Prefiro continuar lutando contra os duendes vermelhos comunistas que aparecem à noite para não permitir meu descanso em berço esplêndido. Eles ficam pulando, apontando para o meu rosto e caçoando do meu sofrimento. Um tem a cara do Xandão, outro do Lula, e um terceiro do Barroso. O último é ainda mais sarcástico: Fica gritando, o tempo todo - "Perdeu, Policarpo, não amola!". Mas enfim, eles não perdem por esperar, pois o capitão não dá ponto sem nó! Quando ele voltar, as muralhas ruirão e os humilhados serão exaltados. Deus, pátria, família e liberdade!

* O Eldoradense


10 de jan. de 2023

Crônica: "Bom dia. Eu sou o cavalo..."




     Bom dia, eu sou o cavalo. Sei que vocês dizem que apenas os falastrões dão bom dia aos cavalos, mas a saudação partiu de mim, então, responder é uma questão de educação. Se eu parecer confuso, me perdoem: Barras de ferro atingiram minha crina e meu crânio no último domingo, numa manifestação que clamava por "Deus, pátria e família..."

      Meu amigo policial me retirou da baia e fomos à praça dos três poderes fazer um trabalho de vigilância. Havia muita gente de amarelo, pareciam estar furiosos. Sim, amarelo é uma das poucas cores que enxergo, e isso eu vi muito bem. A coisa foi ficando feia, os humanos de roupa amarela estouraram feito boiada cujo líder da comitiva havia perdido o controle. Partiram para cima de tudo e de todos, até que alguns "filhos de uma égua" agrediram a mim e ao meu amigo humano. Acho injusto este termo com os equinos e nossas mães, mas o convívio com os humanos me faz relinchar no idioma deles. Então, alguns termos são inevitáveis...

    Barra de ferro na cabeça, doeu pra caramba. Não entendia o que estava acontecendo, e com a pancada, fiquei mais confuso ainda. Mas eles destruíram tudo: Tal qual a vaca amarela, pularam e quebraram as janelas, fazendo muita merda. Não sei se as vacas amarelas de verdade chegam a tanto, mas perdoem-me: forças de expressão dos humanos...

     Depredaram, arrancaram cadeiras, e pasmem: Até um crucifixo foi arrancado violentamene da parede! E olha que eles se dizem Cristãos! 

       É estranho este pessoal me agredir. Justo eu, que faço parte da espécie que ajudou este país a ganhar independência de Portugal, carregando D. Pedro I no lombo às margens do Rio Ipiranga. Pode perguntar! Não perguntem no posto Ipiranga, mas ao Google ou aos livros de história. Agora, estes mesmos caras que vestem amarelo pedem o fim da liberdade sob a intervenção do pessoal de verde oliva. Juro que não entendo!

     Olha, ao que percebo, tal intervenção não vai rolar. Podem tirar-me da chuva se esperam isso! Na verdade, este pessoal arrumou sarna para se coçar. Se eles almejavam cavar a própria sepultura, começaram a "cavá-la"! 

      As prisões começaram e as investigações também. As autoridades querer que se dê nomes aos bois. Ou aos mandantes dos bois? Desculpem-me, estou confuso. Não sei quem são os bois nesta história. Mas também acho o termo injusto com os amigos bovinos. Assim como é injusto chamar meus primos quadrúpedes de burros. Os seres humanos, muitas vezes aparentam ser muito mais burros que os próprios burros! Enfim, força de expressão. O convívio me fez pensar em idioma humano, e algumas forças de expressão são inevitáveis...


* O Eldoradense

    

 

10 de nov. de 2022

Crônica: "Nossa bandeira"...

 


Nossa bandeira é linda, eu amo, e não há motivo algum para mudá-la. A disposição das estrelas dentro do círculo azul simboliza os estados na época da Proclamação da República, quando apenas a província do Pará, maior território próximo ao eixo equatorial, situa-se acima da faixa onde estão os dizeres "Ordem e progresso"
Porém, numa reflexão que remeta a nossa sociedade desigual e concentradora de renda, não há como evitar a analogia: Uma única estrela acima de uma linha divisória da paz e da prosperidade, enquanto todas as outras encontram-se abaixo dela....
Que um dia a nossa estrutura social seja uma constelação mais justa e igualitária, onde todas estrelas estejam mais próximas do patamar da dignidade!!


* O Eldoradense

8 de nov. de 2022

Crônica: "O número 13 e a amarelinha"

   Os últimos rumos que a política brasieira vem tomando provocaram, inegavelmente, uma fissura em nossa sociedade. Tivemos praticamente metade dos eleitores escolhendo um lado, e a outra metade, o outro. Venceu, obviamente, a metade maior. Permitam-me usar a licença poética, pois é claro que se são duas metades, deveriam ser diametralmente iguais. Não foi o caso, pois a metade maior escolheu o número 13, enquanto a outra metade, resolveu vestir a camisa amarela da seleção brasileira. Alguns eleitores de Lula, para não serem confundidos com aqueles que vestem amarelo politizado, compraram outras cores de camisa da seleção: Azul e branca, por exemplo. Particularmente, comprei a segunda, que remete à paz e também aos primórdios da seleção brasileira, cujo primeiro uniforme era branco.

    Outros, talvez mais perspicazes, não abriram mão da camisa amarela, mas expressaram seu voto e sua preferência política na numeração localizada atrás da mesma, ou seja: Camisa amarela da seleção com o número 13. É bom lembrar que antes de todo este alvoroço político, o número 13  e a seleção brasileira sempre viveram uma relação bem harmoniosa, íntima, até. O técnico Zagallo, campeão pela seleção como jogador, técnico e coordenador em copas diferentes, sempre disse que o seu número de sorte era o treze, e até foi presenteado pelo técnico Tite, em 2018, com a sua "amarelinha da sorte"...



 Daniel Alves, jogador multicampeão por onde passou e convocado pelo técnico Tite para o mundial do Catar, já sabe qual camisa vai usar: a 13!


   E só para lembrar, dois dos gols mais bonitos assinalados pela seleção brasileira em Copas do Mundo foram marcados por jogadores que vestiam a número 13. Nelinho, em 1978, contra a Itália, no Mundial da Argentina, bem como Josimar, em 1986, contra a Irlanda do Norte, na Copa do México, não me deixam mentir...




  Não sei, posso estar enganado, e o tempo me dirá isso. Mas esta Copa do Mundo providencialmente posterior a um processo político tão acirrado, bem como a reconciliação do 13 com a camisa da nossa seleção poderá nos trazer bons fluidos. Aguardemos...

* O Eldoradense

9 de out. de 2022

Crônica: "Álbum de família"

 






"Dezembro vai, janeiro vem...

O tempo passa, veloz como um trem..."

Trecho de "Assim os dias passarão"

Canção de Almir Sater/Renato Teixeira


       Há dias em nossas vidas que são modificados bruscamente por um pequeno gesto ou acontecimento. E ontem, por conta de uma surpresa emocionante, para mim, foi um destes dias...

        Tarde de sábado silencioso, a princípio solitário, como de costume. Cenário de tranquilidade entediante rompido quando o carro do meu irmão chega na casa ao lado, onde mora minha mãe. A algazarra dos meus três sobrinhos e a conversa em família proporciona momentos agradáveis e raros, pois as individualidades fazem com que cada um tenha suas rotinas, seus compromissos. Café da tarde, sorvete e o barulho infantill são o suficiente para que o sábado de ontem se diferenciasse dos demais. Mas a melhor supresa viria depois...

      Assim que acabou a  pequena reunião em família, já no começo da noite, eis que estou dirigindo meu carro e paro para abastecer. No intervalo do abastecimento, olho o aparelho celular e verifico as mensagens de whatsapp. Dentre os memes enviados de outros contatos e "trocentas mensagens falando sobre a política", a mensagem proveniente do meu primo Nélson, me ganha especialmente a atenção...

"Boa tarde, primo. Recebi com muito carinho, e com o mesmo, envio a você. Confesso que me fez chorar, e espero que guarde com muito carinho. Um abraço, e que Deus nos dê forças para seguir..."


      Abaixo à mensagem, havia um anexo com 8 fotos. Olhei a primeira de relance, e na hora, não quis olhar as outras, pois sabia que se assim o fizesse, correria o risco de chorar na frente do frentista ou da moça do caixa do posto. Parei posteriormente o carro numa rua ao lado do bosque, observando foto por foto. Enviei aos outros contatos da família, sendo que muitos também já haviam recebido. Por áudio, e ainda contido, conversei com minha mãe, que também já tinha os registros em mãos. 

    Um filme passou pela cabeça, pois eu me lembro exatamente do dia em que aquela avalanche de fotos foi tirada. Não me lembrava a data, mas meu irmão, através de observação mais apurada, atestou que elas remetiam a janeiro de 1991. Muitas daquelas pessoas que foram fotografadas, infelizmente, não estão mais conosco em vida, mas sei que nos acompanham em um outro plano. Um plano superior ao nosso em todos os sentidos.

      Foi numa visita dos primos de São Paulo, que fizeram questão de registrar o momento e saíram fotografando tudo e todos. O cenário foi a casa humilde da minha saudosa avó, apinhada de gente e que era um verdadeiro "coração de mãe": Sempre cabia mais um. E foi um dia realmente para ficar na história e no álbum de família, pois só Deus sabe o quanto era difícil minha avó se render a lente de uma câmera fotográfica. 

      Mas lá estava ela, pequenina, generosa, olhar sereno, com vestes simples e aparentemente frágil. E só quem a conhecia de fato, sabia a fortaleza implícita que havia naquela senhora. E sim, eu chorei de alegria e saudades ao ver e rever tantas vezes aquelas fotos.

       Agradeço à prima Cida, de São Paulo, que enviou inicialmente as fotos. Agradeço ao Nélson, que me repassou. Sei que outras lágrimas caíram não só em Presidente Venceslau, mas também em São Paulo e Londrina, por exemplo. E é mais ou menos como meu primo disse: É através do exemplo dos antepassados que precisamos arrancar força para seguir nessa vida maluca  que às vezes nos faz desanimar. E agora, nós é que precisamos ser exemplo para os que estão vindo. Essa é a ciranda da vida, e "Assim os dias passarão..."

       

* O Eldoradense



13 de set. de 2022

Crônica: 'Karaokê"

 



     No último final de semana, estive em Marília. Como nestas férias não pude fazer uma viagem com V maiúsculo, valeu um bate volta até à cidade de aproximadamente 240 mil habitantes com forte influência da cultura japonesa. E, como muitos sabem, a cultura japonesa não se restringe aos yakissobas, sushis e tempurás. Afinal, assim como a gente, os amigos japas não querem só   comida: Também querem  bebida, diversão e arte!

      E uma das maiores tradições em termos de diversão herdada pela milenar cultura oriental, está o Karaokê. Uma brincadeira legal, onde o sujeito brinca de cantor, com direito a microfone e plateia. Enfim, fui com a namorada num barzinho onde o dono era japonês, mas a clientela apreciadora do karaokê era eclética e miscigenada: Gente de várias faixas etárias, etnias e com gosto musical variado. Do adolescente ao idoso, do polaco ao negrão, do cara com chapéu até o outro com camiseta de banda de rock, todos queriam "dar uma canja".

    Na mesa, entre as bebidas e as porções, um catálogo com um número infindável de músicas. O cliente anota o próprio nome, o número da mesa, além, é claro, o título e os intérpretes da música que deseja cantar junto a um código numérico. Depois disso, é só aguardar o chamado e botar a boca no trombone, ou melhor, no microfone.

      Não nego: Tive muita vontade de cantar Zeca Baleiro, Zé Ramalho ou Raul. Mas a danada da timidez que me acompanha desde criança, resolveu mais uma vez me desafiar, e desta vez, ela venceu. Ainda que eu soubesse que ninguém ali estava preocupado com a performance, meu maior julgador - o meu próprio ego - fez com que minha diversão se limitasse a assistir aos outros se divertindo. 

       É certo que evoluí. Do cara que apenas escrevia sob pseudônimo, hoje faço vídeos de bike e resenhas de livros nas redes sociais. Falta ainda um novo desafio pessoal: Falar em público, e certamente ainda não é a  hora. Mas antes disso, preciso de um treino intermediário, e cantar para uma plateia alheia aos julgamentos qualitativos é uma boa pedida. Afinal, quem canta, seus males espanta! E a timidez ainda é um mal que me acompanha. Sei não... Na próxima vez, acho que o Raul Seixas vai se revirar no caixão!


* O Eldoradense

     

 

30 de jun. de 2022

Crônica: "O último dia"

 



  A cena é muito parecida, difere apenas em alguns poucos detalhes: O sujeito, às seis da manhã, subindo pela última vez o corredor principal do meu local de trabalho, rumo à liberdade, que para nós, chama-se aposentadoria. Geralmente com mais de cinco décadas de vida, as marcas de muitas histórias alegres e tristes estampadas no rosto. Homem de meia idade, pai, alguns já avôs, carregando consigo, além das blusas e pertences guardados no armário, o orgulho do dever cumprido, de uma história que se encerra e outra que se inicia.

   Este texto homenageando estes amigos era para ser escrito há algum tempo. Resolvi absorver um pouco mais da cena, para descrevê-la com mais propriedade. Meus olhos atentos mesclam sentimentos distintos: A alegria pelo indivíduo liberto do trabalho estressante mas também a tristeza por não compartilhar com a mesma frequência de tal amizade. Sim, por mais que a gente diga um ao outro que nos veremos, que nada vai mudar, muda sim. Cada um segue sua vida, tem sua família, é o ciclo natural das coisas. As conversas sobre futebol, as discussões sobre política e até as cornetadas sobre comportamentos dos outros colegas não acontecerão com a mesma assiduidade, serão rareadas, entrarão em extinção e deixarão saudades.

    Aprendi muito com esta turma liberta, e acho que também ensinei uma ou outra coisa, modéstia à parte. Ouvi confissões, segredos, partilhei também os meus, dividimos alegrias e dramas pessoais. Durante o período mais difícil da minha vida, vi gente chorando as minhas lágrimas, tão preocupados comigo quanto membros da família. Isso não tem preço, ajuda a seguir, a se levantar, a entender que cada um tem sua missão e por mais duro que seja o baque, não é permitido esmorecer.

     Outros serão libertos em pouco tempo, e a cena se repetirá com maior frequência a partir de agora. Na condição de segundo mais jovem do grupo - ou talvez, menos velho - só não fecharei a porta e apagarei a luz porque há alguém mais "caçula" que eu. Um caçula com 44 anos, daí a conclusão do quão o grupo é "experiente". Mas enfim, hoje foi o dia de homenagear os que já subiram a galeria e os que, daqui poucos meses, também o farão. Ficam registrados a gratidão e o carinho nas poucas linhas deste singelo texto. Curtam a vida, é direito vosso!

 

* O Eldoradense


Crônica: "Tetos de vidro"

         Imagine, caro leitor, dois hotéis vizinhos. O primeiro é cinco estrelas, o maior de todos. O hotel ao lado, por sua vez, tem três e...