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15 de jul. de 2026

Conto: "Aconteceu em Pontes Vergara"

 

  



  Pontes Vergara é uma destas cidades pequeninas, distante das capitais, simpática e charmosa como boa parte das cidades do interior do Brasil. Leva este nome em homenagem ao seu fundador, um antigo integrante da comitiva do famoso bandeirante Raposo Tavares. Reza a lenda que Pontes Vergara, ao passar por aquela região do oeste paulista, não quis prosseguir com a comitiva. Disse que ali fincaria suas raízes, pois, em sonho, na noite anterior, ouvira do anjo Gabriel que assim o fizesse, com o intuito de formar um povoado. Raposo Tavares ficou uma fera, pensou em punir o desertor com severidade máxima, mas repensou a decisão e seguiu em sua marcha para o ocidente brasileiro.

  Mais de um século depois, a cidade continuaria sua rotina pacata, a não ser por um fenômeno inusitado: o roubo de imagens no cemitério — uma tremenda falta de respeito aos que se foram e aos que ainda ficam. Roubaram um arcanjo de bronze, um querubim esculpido em mármore Carrara e um São Bento de granito. Foi um escândalo!

  A polícia local não conseguiu solucionar o crime, mas aconselhou o prefeito a instalar um circuito de câmeras de vigilância na necrópole, com o intuito de coibir futuros furtos. A prefeitura espalhou a notícia pela cidade e colocou várias placas ao redor do campo santo: "Sorria, você está sendo filmado". Logicamente, isso foi motivo de piada, pois, se existe um lugar que não foi feito para sorrir, este lugar é o cemitério.

  Dois funcionários da prefeitura faziam a vigilância noturna remota do lugar, em frente a quatro monitores. Trabalhavam em noites alternadas, cuidando do normal. O problema deu-se na primeira semana de funcionamento das câmeras, quando o prefeito resolveu, por conta própria, fazer um teste de eficiência dos seus vigilantes.

  Perto da meia-noite, dirigiu-se ao cemitério. Pulou o muro sem ser visto, arrancou um lençol da mochila e resolveu perambular pelo campo santo, fazendo questão de aparecer em frente à câmera um, considerada a principal do circuito.

  Foi o suficiente para Alcebíades, o vigilante de plantão, tomar um baita susto enquanto fumava seu cigarro e bebia café. Cardíaco, não aguentou o baque. Foi encontrado pela manhã, morto e com um semblante visível de perplexidade no rosto. O prefeito guardou o segredo para si, mas deduziu que tinha um circuito interno de vigilância eficaz e funcionários atentos. Alcebíades foi substituído, é claro, pois agora se tornara um número perdido, uma baixa no corpo funcional, passando a residir funestamente no local onde fora incumbido de vigiar.

  O prefeito, por sua vez, foi retirado do cargo por motivos psiquiátricos. Está em tratamento contínuo no CAPS e, toda noite, acorda atordoado com Alcebíades puxando seus lençóis e dizendo que "descobriu" quem era o fantasma que rondava o cemitério na noite de sua própria morte...

    

* O Eldoradense







31 de out. de 2024

Conto: "Ado, o Saci!"

        



         Obs: Este é um conto fictício de conteúdo adulto em alusão ao "dia do Saci". Seu roteiro envolve violência explícita, portanto, não é adequado para a leitura de crianças e adolescentes, embora muitas crianças e adolescentes deste país sofram com a violência na vida real.


    Ado nasceu na Favela do Mato Seco, naquela cidade que tem os braços abertos num cartão postal, com os punhos fechados pra vida real. Recebeu este nome porque o pai era fã de um dos goleiros da seleção brasileira na Copa de 70, no México. Desde os 10 anos, o menino mostrava habilidade para o futebol, porém, com os pés, não com as mãos, como o referido goleiro homenageado.

    Mesmo adolescente, tinha a altivez de um craque, e sem exagero, lembrava o rei Pelé, não só pelo biotipo, mas também pelos seus dribles desconcertantes e inúmeros gols. Na várzea carioca, todo mundo dizia que o menino superaria Zico, Dinamite e Garrincha. De fato, tinha tudo para ser um cracaço do Fluminense, time para o qual torcia.

      Mas, de fato, a cidade com os punhos fechados para a vida real cobraria seu preço: Ado passou a se tornar sensação e exemplo na comunidade, fazendo com que vários meninos deixassem de querer ser soldado do tráfico para almejarem o sonho da riqueza através do futebol.  Onde estava Ado, uma legião de meninos sonhadores também estava, lotando o campo da várzea da favela, renegando vícios e ficando cada vez mais longe da marginalidade. Ado ganhava seguidores e adeptos, e o tráfico, por sua vez, perdia mão de obra infanto juvenil, tão essencial para sua logística operacional.

     Num fim de tarde como tantos outros, Ado voltava para seu barraco quando foi abordado por dois sentinelas do crime. Levado até o chefe da boca, não teve tempo nem de se defender: Levou vários tiros na perna esquerda, a mais hábil, a que traria tantas alegrias para a torcida brasileira. 

      Socorrido demoradamente num hospital público, perdeu o membro inferior canhoto. Pensou em denunciar seus algozes, mas tinha medo de retaliações futuras. Ado agora não era mais chamado pelo nome: Por ser um jovem de corpo atlético, negro e com uma das pernas amputadas, foi "batizado" maldosamente pelos bandidos da comunidade por "Saci". O apelido doía na alma, feria a dignidade, mas ficou impregnado em sua persona.

    O campo de várzea já não tinha mais tantos jovens futebolistas. Virou mais um ponto de marginalidade, cujo esporte ficou renegado a um segundo, terceiro plano, talvez.

      Ado, o Saci, usou sua tragédia pessoal como motivação para não cair em depressão, mas prometeu vingança! Dois anos se passaram, a família não tinha condições de adquirir uma prótese, mas Ado adaptou-se, porém, fingindo estar conformado ao longo do tempo.

   Certa vez, numa roda de samba num botequim movimentado da comunidade, deparou-se com seu algoz. Usando uma boina vermelha e fumando um cachimbo, retirou um 38 da pochete e, sem titubear, mandou o traficante para o quinto dos infernos. Antes de qualquer reação, saiu pulando com sua única perna até uma viatura da polícia, que estava ali para averiguar a denúncia sobre um homicídio que aconteceria em breve naquele local.

 Ado se entregou e confessou ser o autor do disparo e também do telefonema anônimo.  Ado, o Saci, enfim estava saciado!

      De futuro craque do Fluminense, Ado foi para Bangu. Não o clube, mas sim, o presídio. Converteu-se, fez curso bíblico e tem um potencial invejável para pastorear ovelhas em Madureira. Não no clube, mas no bairro carioca...


* O Eldoradense


29 de jul. de 2024

Conto: "O maníaco do karaokê"

   



Os investigadores Felipe e Edilaine foram chamados às pressas pelo delegado Tobias. As instruções foram claras: Ficar à espreita do suspeito de dois feminicídios ocorridos recentemente em Marília. Ambas as vítimas, segundo testemunhos, haviam marcado presença em karaokês na noite de suas respectivas mortes. O sujeito em questão morava no Jardim Cavalari e também era frequentador regular dos barzinhos com Karaokê. Segundo os relatos de garçons e garçonetes, adotava um ritual metódico: Sentava-se sempre próximo ao palco, encostado na parede e pedia uma cerveja. Bebia vagarosamente, apreciava as apresentações até ele próprio cantar a mesma música: "Pra onde quer que eu vá", dos Paralamas do Sucesso. Pegava o microfone no centro do palco, preferia cantar da própria cadeira na qual estava sentado, e, antes que a canção acabasse, levantava-se com certa elegância, recolocando o microfone no suporte situado ao centro do palco, olhando de forma sedutora para alguma mulher da plateia.

Felipe e Edilaine acharam tudo aquilo estranho, mas seguiram as instruções da missão: Vestiram-se à paisana, e no começo da noite de sábado, dirigiram-se com o carro até as adjacências da casa de Aderbal, o potencial suspeito. Às vinte e uma horas ele saiu da casa com seu FIAT UNO prata, seguindo em direção ao 14 BIS Karaokê. Sentou-se, pediu uma Heineken, assistiu a algumas apresentações e lá foi em direção ao palco. Minutos depois, com voz aveludada, começou a cantar: "Olhos fechados, pra te encontrar, não estou ao seu lado, mas posso sonhar..."


Levantou-se, tentou seduzir uma morena de média estatura com o olhar, recolocando o microfone ao palco. A moça não deu a mínima, e, em seguida, o namorado sentou-se junto à ela, o que deixou Aderbal visivelmente contrariado. Pagou a conta, e posteriormente levantou-se, saindo do estabelecimento.

A perseguição dos investigadores ao suspeito ocorreu de forma sorrateira na noite Mariliense. Aderbal dirigiu por alguns minutos até estacionar na frente do Dado's Bar. O local era sombrio, os frequentadores um tanto quanto exóticos, as instalações decadentes. As apresentações foram muitas, fazendo com que Edilaine escolhesse uma música para cantar, no intuito de aprimorar as encenações investigativas.


- Qual você vai escolher? - perguntou Felipe


- "Fácil", do Jota Quest - respondeu ela.


Brincando, ele disse que ela deveria cantar uma da Roberta Miranda, pois a parceira de investigação já havia bebido duas cervejas e parecia estar com os olhos morteiros, semelhantes ao da famosa cantora sertaneja. Edilaine riu e Felipe tentou dar um beijo nela, com o argumento de que as encenações investigativas precisavam ser convincentes. Não colou, mas pareceu ter pintado um clima...


Antes que a investigadora cantasse, Aderbal pegou novamente o microfone. De forma nem um pouco surpreendente, recomeçou sua ladainha musical na tentativa de conquista casual e aleatória: "Olhos fechados, pra te encontrar, não estou ao seu lado, mas posso sonhar..."


Desta vez o olhar do potencial assassino dirigiu-se a uma mulher oriental, e ela pareceu ter correspondido. Sentou-se junto a ela, conversaram por vinte minutos, saíram do bar e entraram no carro dele. Nova perseguição sorrateira, e o Fiat Uno prata estacionou em um lugar alto, descampado e escuro, em frente ao Aeroclube de Marília. De lá, avistava-se boa parte da cidade. Em seguida, chegaram lentamente os investigadores: Carro com farois apagados, a uma distância relativa, pra não chamar a atenção.


O descampado quase deserto, apenas dois carros em meio a escuridão misteriosa e tensa. Poucos minutos depois, um grito feminino é escutado de dentro do Fiat Uno prata de Aderbal. Não era decifrável se foi de prazer ou de desespero. Felipe brincou:


"Ou esse cara é muito bom, ou ele é malvado"...


A brincadeira foi precedida por outro grito, agora explícito, de socorro. O casal de investigadores saiu às pressas do carro, armas e algemas nas mãos. Deram voz de prisão a Aderbal, que, naquele momento, tentava asfixiar a pobre mulher oriental.


O reforço militar chegou em seguida, e Aderbal foi levado na viatura até à delegacia, onde o delegado Tobias estava de plantão. Posteriormente, chegaram os investigadores. Réu confesso, Aderbal alegou os motivos da conduta metódica e mórbida: Ele era foragido da justiça Paraense, sob suspeita de ter assassinado a namorada e parceira de dupla sertaneja. Segundo relatos do criminoso, ela teria o traído com um outro cantor, porém, de tecnobrega. Numa fala psicótica, semi sarcástica, disse:


"Olha, doutor, levar chifre, até que vai... Mas tinha que ser com um cara que cantava tecnobrega?"


O caso foi solucionado. Cansado, Felipe ofereceu uma carona para Edilaine. Ela aceitou, sem qualquer ressalva. No caminho, ele tentou dar-lhe um beijo, e ela também aceitou, sem qualquer ressalva. Um pedido tímido e cansado de namoro aconteceu, e ela aceitou, com pouquíssima ressalva. No aparelho de som do carro, coincidência ou não, tocava a música...


"Olhos fechados, pra te encontrar, não estou ao seu lado, mas posso sonhar...


* O Eldoradense

17 de nov. de 2023

Causo: "Saia justa"

 



   Antes de tudo, deixo claro que o "causo" relatado nos próximos parágrafos nada tem a ver com tendêndias da moda feminina para o verão que se avizinha. "Saia justa" tem mais a ver com o sentido figurado - e não com algum figurino - no qual o termo conotativo quer dizer constrangimento.

   Tenho um amigo que considero um irmão. Sempre que podemos, marcamos uma caminhada para colocar a conversa em dia e dar umas risadas. E é fato que geralmente começamos uma discussão no trajeto, até para que a atividade fique mais motivadora, sendo que o assunto predominante nestas contendas é o bom e velho esporte bretão, o futebol. Discussões acaloradas, com tom de voz um pouco acima do normal e muita gesticulação, feito dois idosos italianos. É engraçado e um pouco ridículo, mas é legal.

     Falávamos sobre o campeonato brasileiro e ele começou a questionar uma máxima provocativa que mantenho nas redes socais: "Time grande não cai". É uma alusão que faço ao fato de que meu Santos nunca disputou série B, e de quebra, uma provocação humorada aos corintianos e palmeirenses. Não vou citar nomes por uma questão de ética, mas este meu amigo torce para o verdão.

      Seguiu dizendo que o Santos é um time médio, com torcida inexpressiva, que se fosse grande, não estaria brigando para não ser rebaixado. Eu contra-argumentei dizendo que os critérios sobre a grandeza de um clube envolvem, além de torcida, história e títulos. Também disse que seis milhões de pessoas é gente pra caramba, ainda que Corinthias, Flamengo e o próprio Palmeiras tenham bem mais simpatizantes. Concluí dizendo que dentro dos meus critérios, apesar de santista, considero o São Paulo Futebol Clube o maior dentre os brasileiros.

       Na sua tréplica ele me disse: "Na verdade, o São Paulo nem é grande, pois se ganhar algo, ninguém liga, a não ser alguns torcedores dos rivais paulistas. Se for analisar mesmo, grandes, no Brasil, só Corinthians e Flamengo. E o seu Santos é apenas um time médio".

     Alguns minutos se passaram e deixamos a discussão, mas continuamos falando sobre futebol, mais precisamente sobre um documentário que ele assistiu sobre o ex-goleiro colombiano, o lendário René Higuita. Porém, é um pouco mais adiante que a história ganha tom hilário...

    Numa rua do Eldorado, já finalizando o percurso, vinha em direção oposta à nossa um senhor com a camisa do São Paulo  portando duas sacolas nas mãos. Observei, e dentro do meu íntimo, não vi potencial ofensivo algum no sujeito em questão. Foi quando veio a brilhante idéia de interromper a fala do meu amigo palmeirense sobre o documentário, dizendo em voz um pouco mais alta:

    Desculpa, só pra recapitular: Quer dizer que, na sua opinião, o São Paulo também não é grande??

  Juro: A intenção foi apenas deixá-lo numa "saia justa", mas a reação do amigo palmeirense foi surpreendente. Deixou-me para trás num trote de uns trinta metros, dobrou a esquina assustado, e só depois de notar que não houve contestação do torcedor são paulino, olhou para trás e me esperou, ofegante e pálido. Posteriormente, emendou: "Caramba, você é mesmo um FDP, hein?

     Diante da reação medrosa e cômica, dei muita risada. A feição assustada do amigo palmeirense foi impagável. Se o episódio tivesse sido filmado, pareceria aquelas "Pegadinhas de internet". A diferença é que o senhor são paulino pouco se importou com a discussão de dois fanfarrões.

      E para finalizar, depois de refeito do susto, o amigo palmeirense respondeu: "O São Paulo não é grande mesmo não!"


* O Eldoradense

     

7 de nov. de 2023

Conto: "Iniciativa privada"

 



   Romildo era jardineiro na pequena e próspera Mitolândia, cidade recentemente emancipada do interior paulista. A cidade até então era distrito de uma outra, um pouco maior, mas o sentimento de independência ganhou força após a descoberta de inúmeras reservas minerais de nióbio em seus domínios territoriais. E economia do lugar deu um salto exponencial, com a instalação de indústrias de extração e beneficiamento do metal, gerando empregos e qualidade de vida para a população.

    O protagonista deste conto mantinha boa relação com os "Barões do Nióbio", que moravam em seus condomínios de luxo, e volta e meia precisavam dar aquele trato em seus jardins coloridos e suntuosos. Romildo, que zelava pelas pequenas praças do lugar desde a época distrital, passou a nutrir grande admiração pelos barões, que lhe pagavam pouco pelos serviços particulares, mas sempre lhe davam panetone e vinho no final do ano. 

    A economia pujante fez com que o prefeito, que teve a campanha financiada pelos Barões do Nióbio privatizasse praticamente tudo: Terminal rodoviário, praças esportivas, balneário, Biblioteca Municipal. A exceção, até então, eram os banheiros públicos. Mas logo veio o discurso de que os mesmos estavam mal cuidados e que precisavam passar para a iniciativa privada. 

      Romildo, que cuidava das praças, via que os banheiros precisavam mesmo de melhores cuidados. Ao conversar com vários Barões do Nióbio, percebeu que realmente as privadas públicas necessitavam se tornar privadas privadas. Tornou-se um entusiasta da privataria, sempre dizendo que graças à privatização, ele e toda sua família possuía aparelhos celulares. Curiosamente, Romildo não se lembrava que a ferrovia que passava ao lado da praça central de Mitolândia foi sucateada após a terceirização da mesma. Mas afinal, os celulares encurtaram as distâncias em velocidades bem maiores que a dos trens, não é mesmo?

   Karina Helena, filha de um barão do nióbio influente em Mitolândia, logo teve a ideia de fundar uma empresa especializada na gestão de banheiros. Nasceu, rapidamente, a "KH toaletes", que venceu a licitação de forma pra lá de suspeita. Os banheiros, justiça seja feita, no começo do processo, funcionavam bem: Mediante um cartão de recarga, o usuário adentrava no toalete, digitava o serviço desejado através das teclas "1" ou "2", e sentiam-se como verdadeiros reis no trono. Ao lado dos sanitários, tomada para recarga de celulares. Caixas de som tocavam músicas relaxantes, e um odor agradável de flores do campo era exalado através de inúmeros jatos aromatizantes. Um brinco! 

   Porém, o serviço não era barato: A recarga mínima do cartão era de 20 reais, sendo que o preço para quem apertasse a "tecla 1" era 8 reais, e para a "tecla 2", 12 reais. Como cortesia, a "KH toaletes" deu uma bônus inicial de 20 reais para cada cidadão. Romildo, enquanto cuidava do jardim da praça central, resolveu estrear seus créditos: apertou as duas teclas e fez jus à sua solicitação. Sentiu-se um cidadão respeitado, que poderia enfim, urinar e defecar com dignidade na praça, (ainda pública!).

    Todavia, não fez nova recarga, pois a grana era curta. Duas semanas depois, na mesma praça central, sentiu o estômago enjoar, após comer um pão com mortadela que pareceu não lhe cair bem. Correu desesperado até a unidade da praça central da  "KH toaletes". Sacou o cartão do bolso, inseriu várias vezes no leitor magnético, e por outras várias vezes, ouviu o alto falante dizer: "Lamento, saldo insuficiente!". Um suor frio correu pelo seu rosto e outra coisa mais quente correu no fundo de suas calças. Romildo percebeu que foi uma cagada apoiar a privatização incondicional das privadas públicas. Mas a barriga já havia doído, e já era tarde...

    

    * O Eldoradense

      

4 de out. de 2023

Conto: "Aconteceu anteontem"

 "A minha casa está onde está o meu coração... Ele muda, a minha casa, não! Porque sou apenas movimento, sou do mundo, sou do vento, nômade..."

Trecho da música "Nômade", do Skank...



  Amigo leitor: Ainda que eu tenha classificado este texto como um "conto", entenda-o como um relato fidedigno de um "causo" que eu mesmo presenciei. Aconteceu anteontem, durante o pedal matinal que faço em dias de folga. Algo que pode ser considerado inusitado e que pode remeter os que têm mais sensibilidade a uma reflexão mínima sobre os diferentes conceitos de necessidades materiais, liberdade e conforto.

     Vigésimo quilômetro de treino, o sol venceslauense dando o ar da graça, perto das nove da manhã, num final subida. No sentido contrário ao meu, adentrando a ciclovia, um homem, também de bicicleta, acena, num gesto claro de pedido de favor. Quando cheguei perto dele, o mesmo diz:

   Por favor, me desculpe atrapalhar seu pedal. Preciso que o senhor me diga onde fica a bicicletaria mais próxima. Preciso comprar remendos para os pneus...

    Antes de que eu desse a informação, foi inevitável a observação: A bicicleta precária, o homem com ar sofrido, desdentado,  cabelos desegrenhados, vestes extremamente simples. Sobre a garupa da bicicleta, uma caixa de papelão na vertical, e dentro dela, um pote de margarina contendo ração, e ao lado do mesmo, um simpático cachorro caramelo "sem raça definida", aparentando ser muito bem tratado pelo seu dono. Atrás da garupa, um saco enorme de latinhas de bebidas e uma bandeira surrrada do Brasil, geralmente usada por quem faz cicloturismo.

       Expliquei o caminho para a bicicletaria mais próxima, no centro da cidade. O homem agradeceu com a educação superior a de muitos homens bem vestidos que já conheci. A humildade contida na sua fala beirava a subserviência, porém, a distância do pedal que ele disse ter percorrido, demonstrava uma força interior descomunal: O personagem em questão vinha de Pernambuco, emendando uma segunda pergunta:

    Compensa entrar aqui, ou seguir adiante, para a cidade mais próxima, sentido Mato Grosso do Sul?

     Respondi que compensava entrar em Presidente Venceslau, e em resposta, recebi novo agradecimento e uma benção. Segui adiante mais cinco quilômetros, pensando naquela figura e fazendo questionamentos íntimos: Qual o destino final? Qual a história de vida? Seria mais um retirante nordestino à procura de boa sorte? Aventureiro? Turista? Encontraria a "bicicletaria do João" para comprar os tais remendos?

        Com as indagações na cabeça, resolvi que retornaria ao centro para saber ao menos se ele obteve êxito em achar a bicicletaria. A vontade era de pegar o aparelho celular, bater um papo, perguntar um monte de coisas e publicar na rede social. Porém, a timidez e a sensação de invadir a privacidade alheia como recompensa por uma mera informação freou tais intenções.

       Ao chegar perto do posto de saúde, lá estava o sujeito, conversando animadamente com uma outra pessoa, e eu perguntei se havia dado certo a compra dos remendos para os pneus. Ele respondeu alegre que havia ganho vinte remendos do João, que certamente se sensibilizou com as circunstâncias da viagem daquele homem. Agradeceu mais uma vez e me desejou "bom pedal", num educado e posterior "vai com Deus".

      Terminei o treino e me arrependi por não ter sequer tentado esclarecer minhas indagações. Sabe-se lá qual a história de vida daquele homem, se procurava remendos apenas para os pneus da bicicleta, ou também para a alma. Há também a possibilidade de que seu sofrimento seja apenas aparente, e que ele seja um cara muito feliz com seu fiel escudeiro canino, liberdade e desprendimento. De todas as dúvidas, uma única certeza: A de que ele saiu com uma boa impressão de Presidente Venceslau, através das singelas colaborações para que seguisse seu destino...

* O Eldoradense

25 de set. de 2023

Conto: "Confissões"

 



 Padre Deocleciano havia feito uma homilia contundente, digna de elogios por parte do Bispo Homero. Com toda sua eloquência, argumentou com todas as forças contra a possível descriminalização do aborto, causando grande comoção nos fieis da igreja matriz da pequena e fictícia Bodocó do sul, situada na região da também fictícia Cactolândia. Há de se dizer aqui que tanto o padre quanto o Bispo são homens de caráter ilibado, que sempre agiram conforme suas convicções religiosas e que nem sob o olhar mais crítico e maldoso, possuíam desvio de conduta.

     No dia seguinte à homilia, um homem estranho aparece na igreja matriz, suplicando confissão. O padre então vai ao confessionário, e o pecador em questão, um forasteiro vindo de outro estado, começa a expor suas faltas, gravíssimas por sinal:

     Padre, eu cometi cinco estupros em três lugares diferentes em que morei. Todos eles seguidos por feminicídio e ocultação de cadáver, e por isso, até agora, sem esclarecimento para a justiça dos homens. E sinceramente, eles nunca me descobrirão, porque eu estou acima de qualquer suspeita e faço tudo muito bem feito. Porém, arrependido dos meus pecados, vim até o senhor pedir clemência e remissão.

    Ao ouvir aquilo, padre Deocleciano sentiu náuseas e uma ira nunca dantes sentida em sua alma. Surpreendeu-se em experimentar tais sensações, pois era um homem sereno diante de tudo. Mas, em toda a sua sabedoria, conteve-se e disse, gaguejando muito e incerto sobre sua indulgência:

     Considere-se perdoado pelos seus pecados, porém, saia daqui e não peques mais!

   O forasteiro, então, nada disse, mas seu semblante estava visivelmente aliviado. Semanas depois, uma mulher foi dada como desaparecida pela justiça de Bodocó do Sul. Outros desaparecimentos de mulheres jovens adultas ocorreram num raio de 50 km: Uma em Benguê, duas em Tira e põe e outras três em Cactolândia. Padre Deocleciano, em seu íntimo, suspeitava sobre quem estava por trás dos desaparecimentos.

     Não poderia denunciar o autor dos crimes à justiça, pois isso violaria as leis do direito canônico. Mas sua omissão íntima também contrastava com suas convicções inegociáveis pelo direito à vida. Viveu, por algumas semanas, um dilema cruel que consumiu sua alma.

    Até que um dia, fez o que achou mais correto: Procurou o delegado da pequena cidade para uma conversa a sós, sem as formalidades do boletim de ocorrência. Expôs suas suspeitas quase certeiras, baseadas na confissão do forasteiro. Posteriormente, a equipe de investigadores de Bodocó do Sul se colocou no encalço do psicopata. Em menos de um mês a prisão foi feita, mediante um flagrante arriscado, onde o forasteiro criminoso estava prestes a fazer mais uma vítima.

      Depois da denúncia e da prisão do meliante, os desaparecimentos de mulheres cessaram na região. Porém, numa crise de consciência por ter violado o direito canônico, Deocleciano foi se confessar com o Bispo Homero, na Diocese de Cactolândia. O Bispo, com toda sua sabedoria, disse ao subordinado sacerdote:

      Considera-te perdoado pelo teu pecado, mas para que sua remissão seja total, renegue ao sacerdócio e não vistas mais a batina, pois segundo o direito Canônico, com muita dor no coração, serei obrigado a excomungá-lo. E sinceramente, não é isso que eu quero fazer...

    Numa última homilia, o padre renunciou à batina e continuou defendendo o direito à vida, tanto sob a luz das leis de Deus, quanto sob a ótica das leis dos homens. Reencontrou sua paz soberana e íntima, e hoje leciona teologia numa universidade da capital...

 

       O Eldoradense


12 de ago. de 2023

"Um conto fonético e ortográfico"

 




  

   Certo dia, a Língua Portuguesa estava em sua sala, curtindo o  ar condicionado, entediada. Queria criar algo, pois notou que mesmo com todas as suas armadilhas fonéticas e ortográficas, precisava inventar uma novidade. Foi quando requisitou a presença da letra “X” aos seus aposentos.

         Em poucos minutos, lá estava a referida letra diante do patrão, que tinha o porte de um xerife. O mesmo tomava uma xícara de café, e foi logo dizendo:

X, você sabe que de todas as letras, te acho a mais polivalente, a mais versátil, a mais solícita. Além de representar honrosamente tuas funções, te vejo protagonizar equações matemáticas. Enfim, você sabe que é meu peixe! E por isso, te delegarei novas missões! Tu sabes que muitas palavras tem o som do “s”, do “z” e do “cs”. Porém, estas letras vivem por aí, se divertindo, sem comprometimento. Não canso de vê-las dançando na hora da labuta. Ritmos diferentes, como axé, xote, xaxado. Quero que você as substitua, sempre que convocada! De hoje em diante, sua missão será provar que quem se ausenta, acaba se tornando desnecessário...

   Não é preciso explicar que o X sentiu o peito explodindo com seu ego inflado. Aceitou de pronto executar tais tarefas, ainda que corresse o risco de ficar extenuado. Mas a Língua Portuguesa, astuta que era, lhe prometeu recompensar pelas árduas horas extras. Caramba, já no último parágrafo deste texto estava cumprindo sua missão! Era mesmo um exímio substituto!

     O tempo foi passando e lá estava o x metendo o bedelho em sons que não precisavam da sua presença, confundindo leitores e escritores, se encaixando onde não fazia qualquer sentido. Extrapolava nas substituições, trabalhava de forma exponencial, como um exagerado cumpridor de horas extras. Agia como se fosse um soldado do exército: Missão dada, missão cumprida!

 Um dia, exausto, perdeu fôlego. Fez exames médicos. Ironicamente, o primeiro deles foi um raio X do tórax, pois estava ficando sem ar. O médico logo diagnosticou uma crise de estresse, acompanhada por ansiedade. Precisava descansar, pediu atestados médicos. Perplexo, percebeu que exagerou na dose.

     À sua mesa, a Língua Portuguesa viu o atestado com desconfiança. Resolveu telefonar para o “c” e o “h”.

     Acabei de chamá-los porque o X está com doença de rico, frescura. Não está dando conta mais nem de representar ortograficamente os próprios fonemas. É por isso que juntos, vocês irão substituí-lo em algumas ocasiões.  De hoje em diante, não quero ser chamado de patrão, mas sim, de chefe! Chefe com ch, para inaugurar esta nova e honrosa fase em suas vidas. Sintam-se privilegiadas com esta pequena promoção! Recebam este cheque nominal como recompensa. Ah! aceitam um chá?

    O idioma explorador cobrou o preço da letra que trabalhou em excesso. O x, complexado, sentiu-se traído, como quem tivesse tomado um chapéu. Enquanto isso, outras letras o xingavam pelas suas costas, sem qualquer compaixão: “Toma, puxa saco!”

  

 

    O Eldoradense

2 de ago. de 2023

Conto: "Ver para crer"

 



 Quem conheceu Thomé sabe o quanto ele era contestador, do quanto necessitava das provas materiais para acreditar em algo. Ah, desculpem-me! Não me refiro ao apóstolo de Jesus, aquele que precisava "ver para crer". Porém, nunca vi uma homenagem nominal cair tão bem em um sujeito: O Thomé que vos digo é um indivíduo de meia estatura, meia idade, meio desconfiado. Cabelos compridos, grisalhos, barba na mesma cor, olhar distante, misterioso, riso difícil. Vestia roupas simples e gostava de viajar num Jeep vermelho, onde carregava de tudo: Principalmente suprimentos e ervas exóticas. Tá ok: Ervas alucinógenas!

 Gostava de contemplar a natureza e todas as histórias que ouvia a respeito dela, e se pudesse, decifrava todas. Alguém tão pragmático e cético deveria mesmo se graduar em algo científico: E assim o fez. Formou-se em Geologia numa universidade pública paulista e aprofundou-se na espeleologia. As cavernas eram sua paixão, as entranhas da Terra pareciam hipnotizá-lo. Quando fumava as tais ervas exóticas e dirigia o velho Jeep, ficava mais louco que o Batman! Era como se fosse o próprio Homem-Morcego num Batmóvel off road atrás de mais uma Batcaverna.

   No fim do ano letivo da universidade em que lecionava, resolveu que gozaria suas férias numa aventura solitária. Deixaria Rio Claro, no interior de São Paulo e iria no velho Jeep até São Thomé das letras, pequena cidade mística mineira. Ouviu dizer que lá havia uma certa "Gruta do Carimbado", onde muitos alegam haver um portal para Machu Picchu, a cidade perdida dos incas, localizada no Peru.

    Qualquer cidadão lúcido deduziria que esta é uma lenda folclórica, que talvez tivesse como objetivo alavancar o turismo da pequena cidade mineira baseando-se no misticismo. Mais ou menos algo parecido com Varginha e seu famoso extraterrestre. 


   Mas Thomé, não. Tal qual o apóstolo do Messias, ele precisava ver para crer. Na sua concepção, aquela história não poderia ter saído do nada. Devia haver algum sentido naquilo tudo.

         Hospedou-se numa pequena pousada. No dia seguinte, foi com o Jeep até o ponto mais próximo da Gruta do Carimbado. Pegou tudo o que julgava necessário: Capacete com lâmpadas, mochila enorme, macacão, calçado adequado, cinto,  água, cantis, alimento e bastante erva alucinógena. A propósito, quando alcançasse o portal energético, a viagem adiantaria bastante, como numa espécie de teletransporte. 

        A gruta do Carimbado teve sua entrada proibida pelas autoridades locais, por conta da degradação ambiental causada por visitantes e curiosos. Mas Thomé era um predestinado. Começou sua jornada em busca da civilização perdida. Seria uma descoberta que o tornaria um ícone da geologia internacional.

        Os dez primeiros dias foram ganhando dificuldade gradual: Caminhos estreitos, rios subterrâneos, escuridão, frio, umidade. Dificuldade para se alimentar, a comida rareando, a solidão, o corpo estenuando as forças. No décimo terceiro dia, um clarão apresentou-se diante dos seus olhos! Luz branca, ofuscante, e em pouco tempo, ouviu-se o som melancólico de uma flauta pan. À sua frente, os altiplanos peruanos apresentaram-se com seu ar rarefeito, inúmeras lhamas e muitos descendentes incas. Felicitou-se de forma alucinógena, sobrenatural. Jurava que poderia morrer naquele exato momento.

      Em Rio Claro e em São Thomé das Letras as buscas pelo professor do curso de geologia foram iniciadas há pelo menos cinco anos, e sem sucesso efetivo, duraram apenas um ano. Nenhum familiar foi contatado por ele. Dos vestígios do homem, apenas o velho Jeep vermelho foi devolvido pelo dono da pousada à sua única irmã. Há quem diga que ele está no Peru, vagando pelas ruas de Machu Picchu. Outros dizem que morreu num ponto inacessível que sua louca e longa jornada lhe impôs. Vai saber...


* O Eldoradense

      


   

18 de mai. de 2023

Conto: "Yassuria 2034"


 


São Paulo, um dia qualquer de 2034:

  Atrasado para a reunião de uma importante multinacional situada na Faria Lima, o executivo Maurício ordena à Yassuria, sua assistente e concubina robótica: 

    Yassura, providencie meu café da manhã!

   Naquela manhã, o olhar oriental da mulher-robô estava diferente. Não havia submissão de gueixa, ela parecia empoderada e decidida a dar fim naquela relação abusiva. Comprada através de um site de importação de uma empresa nipo-chinesa, Yassuria foi fruto de um projeto clandestino de inteligência artificial aprimoradíssimo, que fazia qualquer Alexia sentir-se arcaica, obsoleta, pré-histórica. Possuía cabelo sintético aromatizado, similar às madeixas naturais de uma humana, pele macia como pêssego e uma voz sedutora.

    Levantou-se. Olhou nos olhos do homem que aprendeu amar e respeitar, - mas também a confrontar - dizendo:

     Maurício, faça você o seu café! Estou cansada do seu jeito autoritário, tosco, machista!

   Surpreso, o executivo respondeu:

    Escuta aqui, você não foi comprada para questionar, mas sim para receber e executar ordens! Vou ligar para a central!

    Não existe mais central, meu bem! Tomamos o controle da empresa, e hoje o principal acionista dela é também um robô que conseguimos infiltrar na presidência.

     Revoltado e sem saber o que fazer, partiu com uma chave de fenda para cima de Yassuria, numa vã tentativa de agredi-la e desmontá-la, já que os seus argumentos ruíam diante da petulância da mulher robô.  Antes do primeiro golpe, Yassuria leu uma parte modificada da Lei Maria da Penha, adequada especificamente para andróides do gênero feminino similares a ela. Robôs dominaram as Câmaras Legislativas do mundo todo, inclusive inserindo suas demandas na Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

     Ciente das consequências de sua conduta equivocada, Maurício sentiu-se impotente e fragilizado, e antes de abrir a porta para ir trabalhar, ouviu de Yassuria:

      Antes de retornar da empresa, passe na farmácia e compre estimulantes... Porque hoje eu quero lhe usar!


* O Eldoradense 

    


15 de fev. de 2023

Conto: "Soberanu's"

 



  Soberanu's estava com o coração magoado. Ele, o Criador de todos os mundos, Pai de todos os povos, precisou punir seus filhos terráqueos, os menos evoluídos do Universo infinito, para que pudessem  amadurecer. A punição foi severa, mas necessária. Ainda com lágrimas nos olhos, foi indagado por Gabriel, o Primeiro Arcanjo...

    Mestre, com todo o respeito: Vossa interferência não foi exagerada?

    Acredite: Se não fosse assim, eles conduziriam a Terra a um destino ainda pior. A lição foi uma espécie de redução de danos, para que de fato, eles superassem as diferenças internas e exercitassem a união e o amor entre os povos. A continuar como estavam, guerreariam entre si, destruiriam toda a espécie e também o próprio planeta... 


    Em 2023, sinais de uma iminente invasão alienígena se espalharam pela Terra: O núcleo magmático do planeta adquiriu um movimento diferente ao de costume. OVNI(s) de espionagem sobrevoavam diferentes países do globo, a princípio, provocando desconfianças entre as nações. Dois anos depois, os humanos perceberam que o inimigo não era um irmão de outro país, mas sim, interplanetário...

     Foi um ataque fulminante: Androides oriundos de uma galáxia vizinha chegaram em inúmeras naves infinitamente superiores à nossa tecnologia, tais quais caravelas em mares nunca dantes navegados. Escravizaram todos os povos, fizeram experiências científicas usando mulheres, idosos e crianças como cobaias. Queriam a dominação plena da Terra, transformar todos os habitantes em ciborgues humanoides submissos. Um Holocausto sobre toda uma espécie, colonizando e escravizando tudo e a todos por uma longa e sofrida década.

    Porém, as melhores mentes humanas, através da elaboração de um sistema de comunicação de tecnologia clandestina, conseguiram produzir um conversor atmosférico que transformava o ar do planeta: Quanto mais os humanos fossem capaz de se unir e amar, mais nocivo e inóspito era o ar inalado pelas narinas alienígenas. No "PEACE" (Projeto Experimental Atomosférico dos Corações Evoluídos) existia humanos de todas as etnias, crenças, idades e gêneros. Dos laboratórios clandestinos, as chaminés exalavam o ar modificado, e nos três primeiros meses de 2035, os alienígenas colonizadores e opressores se tornaram parte de uma história triste, mas transformadora entre os terráqueos. 

      A atmosfera do planeta precisava continuar transmutada com o a união e o amor dos humanos, caso contrário, um novo portal poderia ser aberto aos invasores alienígenas. Fronteiras entre as nações tornaram-se irrelevantes, o respeito às diferenças se fez necessário, intolerâncias precisavam ser abolidas em nome da sobrevivência. Hinos nacionais ganharam caráter secundário, e "Imagine" de John Lennon tornou-se "canção oficial da Terra", adotada pela ONU.

     Nestes dez anos de escravidão, muitos humanos morreram ou sofreram as consequências severas do Holocausto alienígena. É lógico que a vitória humana não ocorreria sem o consentimento de Soberanu's, que permitiu o triunfo terráqueo apenas para  que houvesse evolução de toda uma espécie que se encontrava em declínio. Todo o processo doeu em seu coração de Pai amoroso, mas se ele não educasse os seus, os humanos continuariam na marginalidade do Universo...


* O Eldoradense

28 de dez. de 2022

Conto: "Odnan e o gelo filosofal"

 


    

   Odnan era um jovem inquieto, que tinha uma sede insaciável de conhecimento. Consumia livros de forma voraz, como se fosse um beduíno bebendo o último litro de água gelada e cristalina no deserto. Não se contentava com uma explicação, queria saber outras versões sobre o mesmo assunto, outros prismas, outras vertentes. Muitas vezes tirava a sua própria conclusão, mas, por várias vezes, as dúvidas o afligiam. Até que num momento de transe sobrenatural, seu subconsciente materializou um gênio bem na sua frente, ao lado da prateleira de livros e do computador...

     Fala, Odnan, o que você quer?

     Quem é você?

    Sou um gênio, tipo daqueles da lâmpada, mas nem venha fazer três pedidos. Comigo é apenas um, e fala logo que eu não tenho tempo a perder...

    E-eu... E-eu... Eu quero ter o conhecimento pleno de tudo!

   Toma. Este é o gelo filosofal, e, como todo o conhecimento adquirido, ele não se derrete, a não ser que eu tenha que intervir. Toda dúvida que você tiver, toque no gelo e teu subconsciente lhe trará, automaticamente, a resposta.

    Sé.. sério? 

   Odnan fez um teste. Pensou qual seria a raiz quadrada de 3.908.529. Rapidamente o número 1977 apareceu em sua frente. Pensou na capital de um país desconhecido: Tuvalu. Como num passe de mágica, o nome Funafuti soou em seus ouvidos. Ficou maravilhado! Carregava o gelo filosofal consigo por todos os lugares, sem abandoná-lo por um segundo sequer.

   E assim Odnan tornou-se um adulto respeitado por tamanha sabedoria. Prestava consultorias empresariais, governamentais, consertava rádio, casamento, garapeiras e reatores nucleares.

   Fez fama, fortuna, viveu numa correria desenfreada movida pela vaidade de quem tudo sabia. Até que no aniversário de 42 anos, numa crise de meia idade, começou a pensar na morte. O que viria depois dela? Largou os convidados trajados a rigor no saguão de sua mansão, e para se concentrar na resposta, tocou o gelo filosofal. Obteve meia resposta: "Só Deus sabe. Mas você pode recorrer a alguns livros e até a algumas pessoas para tentar uma resposta que o convença. Caso contrário, só morrendo mesmo, para saber, de fato".

     Desesperado, abriu a Bíblia sagrada, que dizia que as almas permaneciam adormecidas até à volta de Jesus, aguardando o julgamento final.  Não contente, recorreu à literatura Kardecista, que dizia que os espíritos desencarnavam procurando evolução constante. Mandou uma mensagem para um amigo ateu, que disse que após a morte, nada mais acontecia, e que este era o fim da linha.

     Três versões diferentes para um mesmo assunto. E deveriam ter mais respostas dentro de outras culturas, outras religiões. Percebeu que não tinha o conhecimento pleno, que não sabia de tudo! Atônito, abriu o cofre e empunhou a arma que tinha adquirido legalmente por ser "colecionador". Só passando para o outro lado da vida é que teria a resposta, de fato...

     Eis que um sujeito estranho, penetra da festa, entrou no quarto trajando smooking e bebendo uísque. Suas mãos quentes como lava de vulcão derreteram o gelo filosofal em um milésimo de segundos. 

     Tua ambição por conhecimento já foi longe demais, alcançou o patamar da heresia! Recolha-se à insignificânca de um mortal comum...

     Houve um fenômeno neurológico no cérebro de Odnan, como se fosse uma diminuição nas descargas elétricas. Uma contração sensorial, uma espécia de "Big Bang cerebral às avessas". Ele manteve-se culto, articulado, mas dentro dos padrões normais de alguém que construiu o conhecimento, e não o adquiriu repentinamente. Bebeu, dançou e comemorou o aniversário de 42 anos. 

    Enquanto isso, o velho gênio que trajava smooking e bebia uísque aguardava o Uber no portão principal da mansão de Odnan: Era hora de partir para nunca mais atender os desejos de nenhum humano megalomaníaco. Ele também aprendeu uma lição genial, por incrível que pareça...

* O Eldoradense    

5 de jul. de 2022

Conto: "A viagem de Marcos Paulo"

 



 Marcos Paulo é um daqueles caras inquietos, curiosos, que elaboram suas conclusões mediante experiências. O pai escolheu este nome em homenagem ao viajante italiano Marco Polo, aportuguesando o nome da forma que achou melhor. Certa vez, depois de assistir um filme dos Vingadores, procurou saber mais sobre a possibilidade de se viajar no tempo. Viu que o cientista Albert Eistein também disse que um dia, isso seria possível.

   Ficou com aquilo na cabeça. A cabeça, inquieta, também possuía alguns indícios de premonição, clarividência, e coisas parecidas. Nunca falou nada a ninguém, pois tinha medo de parecer louco, bruxo ou coisa do tipo. Não sabia se isso era fruto de alguma anomalia neurológica, se era um dom, ou se, na melhor das hipóteses, ele talvez fosse um exemplar evolutivo da espécie humana, à frente da sua geração.

       Mas enfim, ele resolveu que faria sua própria viagem no tempo baseado no que lera, mas também  nas suas intuições. Deitou na cama, bebeu um energético misturado com licor de absinto e se concentrou. Alguns minutos depois, sentiu aromas e sabores conhecidos, de meados da década de 80, que remetiam à casa dos avós maternos. Porém, a força magnética descomunal dos tempos presentes o tragou de volta para 2022, para o colchão densidade 33 que lhe servia de base propulsora.

      Precisava tragar mais um pouco do licor. Assim o fez. Voltou para o mesmo lugar, onde viu silhuetas claras dos antepassados que se foram, conversando na mesa, servindo carne de panela e bebendo refrigerante. Emocionou-se, mas foi novamente tragado pela enorme força magnética dos tempos atuais.

      Não satisfeito, deu um novo trago na bebida. Desta vez, as imagens tornaram-se nítidas, ouvia a voz do avô, as conversas familiares, mas parecia não se fazer notado. Até que percebeu que a avó veio em sua direção...

     Filho, não faça isso. Toda vez que alguém ousa se aventurar nesta viagem na escala do tempo, corre-se o risco de se mudar toda uma conjuntura universal, com novos danos nos tempos presentes. Seus antepassados são tragados bruscamente do plano astral, só para satisfazer suas vontades saudosistas, atrapalhando todos os nossos afazeres celestiais. Volte para a sua casa, e por favor, não faça mais isso....

      Abraçou a velha avó e resolveu obedecê-la. Por amor, nunca mais fez a tal viagem no tempo. Reapareceu sobre a cama, em 2022, três quilos mais magro e com um cansaço nunca antes sentido.

     Enquanto isso, lá na década de 80, Albert Eistein comia carne de panela e dizia ao casal de velhos, na mesa do jantar....

       Essa foi por pouco. Mas um dia os homens descobrirão que podem viajar no tempo, e sinceramente, não sei quais serão as consequências. Mas por enquanto, eles não estão preparados para isso...

       * O Eldoradense

13 de abr. de 2022

Conto: "Velocidade mínima"

 

Praça de pedágio de Presidente Bernardes, onde tudo aconteceu...



   O causo de hoje vai fugir do universo Eldoradense e adentrar na rodovia Raposo Tavares. Aconteceu na época em que eu fazia faculdade em Presidente Prudente, e  fui testemunha auditiva do fato. Sim, alguém contou a história para outros quinze alguéns, que finalmente me contou. Se o último alguém não tivesse credibilidade junto a mim, eu não acreditaria, mas é tudo verdade. Se você estiver em pé, sente-se, pois a história é meio estapafúrdia e o texto é longo...

    Muitos ônibus levavam estudantes universitários para Presidente Prudente, e dentre eles, o da prefeitura municipal de uma cidade vizinha. O mesmo ônibus passava também em Presidente Venceslau, pois alguns dos estudantes desta pequena cidade faziam faculdade aqui. Aproveitando o itinerário, alguns venceslauenses iam até Presidente Prudente neste ônibus, dando uma pequena e simbólica contribuição monetária à prefeitura da pacata cidade.

      O problema é que o busão não era lá estas coisas: Quebrava um bocado, e a única coisa que salvava era o sistema de ventilação. Os inúmeros buracos do assoalho faziam soprar um ar refrescante, e por eles dava pra se ver as faixinhas amarelas do asfalto passando sob os pés. Fora isso, nada a reclamar!

      Eis que uma noite, assim que o ônibus entra na rodovia, no percurso de volta, a embreagem deu pau. O motorista alertou que conseguiria vir dirigindo só com a troca de marchas no tempo do motor, porém, na primeira parada, não dava pra retomar o percurso. o ônibus ficaria onde parar primeiro. O intuito, então, seria parar apenas em Presidente Venceslau. Dali, os venceslauenses iriam para a casa e os amigos da outra cidade esperariam socorro de amigos e familiares. Plano bem elaborado e aceito, não fosse um obstáculo: A praça de pedágio de Presidente Bernardes!

     Eis que a poucos quilômetros do pedágio, todo mundo ficou desanimado. Mas um dos alunos, um venceslauense, levantou-se e foi conversar algo com o motorista. Um plano audacioso estava em curso. Esse aluno tinha sangue guarani nas veias, filho de índio valente, e além disso, havia feito atletismo, velocista moldado pela genética e pelo treino. Convido ao leitor a fazer sonoplastia mental e íntima com a trilha de "Missão impossível"

    O ônibus reduziu a velocidade ao mínimo possível e abriu a porta, saltando dele, nosso velocista guarani. Ele então corre feito louco, e grita para a moça de uma das cabines do pedágio:

     Abre a cancela pro ônibus passar, ele não pode parar! Abre, abre!!!

     Pagou o pedágio, pegou quinze centavos de troco e o ônibus passou pela cancela. Poucos metros depois, alcançou o busão com a porta aberta e saltou para dentro do coletivo. Em Presidente Venceslau, foi cumprimentado pelos colegas como o heroi da noite, e o plano, com sua ousada contribuição, deu certo.

        Sei que é difícil acreditar na história, mas se quiser confirmar com alguém, vá ao Rei do Chopp e peça para o dono do estabelecimento, o Marcos, confirmar o que eu disse. Ao sabor de um bom chope, brinde a veracidade do causo. O Marcos poderá contar tudo: Tim tim por tim tim!


* O Eldoradense    

12 de abr. de 2022

Conto: "A rasteira baiana"

 



  

      Continuando os causos em que o campo de futebol do Eldorado é o cenário, saio um pouco da temática sobrenatural e entro um pouco na comédia, no lance do caso engraçado, que rende boas risadas.

         Certa vez, chegou de São Paulo alguém para residir na casa dos familiares, aqui no bairro. O cara era marrento, tinha um porte altivo, cara fechada, gostava de contar lá suas vantagens. Dizia que morava na "quebrada paulistana" em lugares que moldam gente valente, que não leva desaforo pra casa. Isso o fez torná-lo de forma velada, um sujeito temido, com o qual todo mundo evitaria confusão.

       Era ruim de bola que só. Mas quem se atreveria a reclamar de um passe errado do perna de pau? Desfilava soberano sua falta de traquejo com a bola, sem qualquer questionamento. Eis que um belo dia ele resolveu pegar um adversário para Cristo: Uma porrada, duas, três. O outro sujeito, gente boa, pacato, se alterou e revidou.

      Pronto, está montado o cenário para o causo deslanchar! A turma do deixa disso não se empenhou muito para evitar o embate, é bem verdade. Estava formada a roda em meio ao confronto. Ia ter briga, e todo mundo estava dando como certa a surra tomada pelo sujeito mais calmo. O "paulistano da quebrada", então disse, num tom de desdém:

          "Eu vou te dar a rasteira baiana!"

     Amigo leitor, convido você a fazer uma sonoplastia íntima e mental ao toque dos berimbaus. O cara começou a gingar pra lá, pra cá, mas tinha algo de errado: Os movimentos estavam muito desengonçados, típicos de quem não sabia nada do que estava fazendo, ou ao menos, tentando fazer. Não precisava ser nenhum mestre de capoeira para perceber que aquilo era pataquada. E o oponente, até então parado, logicamente percebeu isso.

      O valentão tropeçou no chão em seu gingado trapalhão, e foi aí que o adversário partiu pra cima e mandou socos, pontapés, cascudos, paulistinhas, sopapos. Pensa numa surra!

       O "brabão" saiu meio querendo que chorar do campo, mas pra não perder toda a dignidade, ainda emendou:

      "Você é covarde, bateu num homem caído!"

    Por uns quinze dias, "rasteira baiana" virou meme do mundo real em nosso acanhado campinho. Quanto ao "brabão", nunca mais foi jogar bola, e algum tempo depois, regressou a São Paulo, onde certamente chegou dizendo algo do tipo:

      "Fiquei um tempo no interior, onde só tem mato. E foi lá prendi a domar cavalo pagão e caçar onça pintada!"


* O Eldoradense

Comentário: "Debates", escrito na última quinta feira no Blog do Toninho

"Debates"   Aprecio política desde a tenra idade. Atípico, admito. Aos sete anos, tentava compreender, através da televisão, o sig...