30 de out. de 2026

Escrito ontem, para o Blog do Toninho: "Pelé e Lula"

  


  Há pessoas que foram agraciadas com um ou mais dons acima da média. Algumas delas, além de possuírem esses dons, potencializam-nos com uma espécie de hiperfoco, tornando-se quase geniais ou imbatíveis no que fazem. Essas pessoas têm perfil competitivo, parecem gostar da adrenalina proporcionada pelo desafio, pelo embate, pela peleja.

  Duas delas, sem dúvida alguma, são os brasileiros Pelé e Lula. Admiro ambos, porém, em relação ao primeiro, sou fã incondicional e, em relação ao segundo, possuo inúmeras ressalvas. Contudo, não dá para negar que, levando-se em consideração os resultados obtidos nas urnas ao longo de sua trajetória, Lula é o Pelé da política.

  Já li e ouvi muito sobre Pelé, e uma das características mais relatadas era sua aversão às derrotas. Em situações adversas, usava todo o seu potencial. Era marcado de forma ferrenha, quando não desleal, pelos oponentes. Se sofria alguma agressão, não se fazia de vítima: revidava de forma sorrateira na melhor oportunidade, pois era gênio, e não santo. Antes de sua melhor Copa do Mundo, a de 1970, no México, muitos questionaram seu reinado, considerando-o em declínio. O questionamento serviu como motivação e deu no que deu: após a final épica e vitoriosa contra a Itália, companheiros de seleção diziam que o rei esmurrava a parede, gritando, tresloucado, que não estava morto.

  Há um outro clássico relato de um jogo ocorrido em Presidente Prudente, em que a equipe local, a Prudentina, abriu o placar contra o quase imbatível Santos, em outubro de 1965. As provocações dirigidas a Pelé partiam incessantemente da torcida adversária. Em dado momento, Pelé abriu a mão e acenou para a arquibancada, num gesto que sinalizava que algo ainda estava por vir. E veio. O Santos venceu a equipe anfitriã pelo placar de 5 a 2, de virada. Todos os gols, um para cada dedo da mão do rei que acenou para a torcida, foram de Pelé. A soberba precedeu a queda daqueles que o provocaram.

  Falemos agora sobre o controverso Lula. A política correndo-lhe nas veias, a experiência do sétimo pleito eleitoral para a Presidência da República posta à prova. Até então, três vitórias e três derrotas. No combo oferecido por Luiz Inácio, estão o dom de se comunicar com o público, a experiência dos embates contra inúmeros adversários ao longo de sua trajetória, a altíssima capacidade de compor alianças e também de articulação política. Isso sem falar na anulação de uma condenação que o colocou em liberdade, permitindo-lhe alcançar o terceiro mandato presidencial.

  Tudo foi colocado em xeque, em questionamento, após um resultado considerado inesperado no primeiro turno da última eleição. Houve, inclusive, uma provocação do jovem adversário, que zombou, de forma jocosa e juvenil, da amputação de um dos dedos de uma das mãos de Lula. É lógico que Lula usaria toda a sua experiência e capacidade de mobilização para virar o jogo. Como não é santo, e longe disso, também usaria métodos, no mínimo, questionáveis para alcançar êxito. Tal qual as cotoveladas sorrateiras de Pelé para vencer e conter adversários desleais, Lula usou o que pôde da máquina pública para reverter o placar. Gastou muito a crédito, de forma eleitoreira, certamente imoral, mas, até que se prove o contrário, dentro da legalidade.

  Veio a vitória, de virada, da mesma forma com que o Santos de Pelé havia vencido a Prudentina. Foi como se Lula tivesse imitado o rei do futebol naquele gesto de "espera", feito com uma das mãos. Édson Arantes marcou um gol para cada dedo de sua mão naquele outubro de 1965. Em outubro de 2026, Luiz Inácio venceu uma eleição para cada dedo de sua mão, justamente aquela que tinha um dedo amputado, motivo de chacota para o adversário soberbo e juvenil.

  Pelé foi tricampeão mundial, enquanto Lula é tetracampeão brasileiro. Pelé um dia gritou, em forma de desabafo, que não estava morto. Lula um dia gritou que tentaram matar a jararaca e não conseguiram. Nenhum deles é santo, contudo, são genialmente humanos. Um foi gênio da bola, falecido aos oitenta anos de idade, mas imortalizado pela história. O outro, vivo e com oitenta e um anos, ainda faz história.

  E uma coisa é certa: não é aconselhável subestimar ou zombar dos gênios, pois, geralmente, quando isso acontece, a soberba precede a queda...


Nando Freitas, funcionário público estadual

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