24 de out. de 2026

Comentário: "Debates", escrito na última quinta feira no Blog do Toninho




"Debates"

  Aprecio política desde a tenra idade. Atípico, admito. Aos sete anos, tentava compreender, através da televisão, o significado da tal abertura política, da anistia, do fim da ditadura e das “Diretas Já”. Era um movimento que ganhava força tremenda nas grandes cidades brasileiras e reunia artistas, figuras políticas, personalidades influentes e uma multidão de populares nas ruas das metrópoles brasileiras. Curiosamente, em nossa pacata cidade interiorana, a vida parecia passar alheia ou, no mínimo, bem menos interessada no assunto. Talvez fosse uma impressão equivocada, não sei.

  A compreensão foi amadurecendo conforme a adolescência foi chegando. Acompanhei, dentro das limitações naturais impostas pela faixa etária, o processo eleitoral de 1989. Dentre comícios, propaganda eleitoral gratuita e outros ritos que compõem uma eleição, o que eu mais apreciava eram os debates. Em teoria, é a oportunidade de o eleitor verificar, de forma mais direta, a argumentação de cada candidato, a clareza ao expor suas ideias, plataformas e planos de governo, bem como a capacidade de improviso diante de perguntas e situações adversas. Em teoria.

  Digo isso porque, na prática, os debates estão se transformando numa espécie de “vale-tudo verborrágico”, em que nada se elucida, pouco se acrescenta e muito se ofende. A provocação ganhou prioridade em detrimento da explanação; o cinismo passou a prevalecer sobre o civismo.

  Não que as provocações inexistissem no passado. Porém, elas eram o tempero, não o prato principal. E, quando aconteciam, eram dotadas de um sarcasmo inteligente e polido, sendo raras as situações vexatórias e constrangedoras de hoje, que, inclusive, já chegaram às vias de fato. Exemplo concreto foi a “cadeirada” desferida por José Luiz Datena em Pablo Marçal, durante um debate no último pleito municipal da cidade mais populosa das Américas, São Paulo. A provocação extremamente desrespeitosa de um resultou na reação passional do outro, gerando uma cena patética, uma afronta à democracia pela qual muitos lutaram.

  Entendo que, mesmo nos dias atuais, os debates são de suma importância para a democracia, mas talvez tenham perdido sua finalidade, que é esclarecer e elucidar. Eles se tornaram um espetáculo bizarro, semelhante aos reality shows de gosto duvidoso transmitidos para telespectadores sedentos por entretenimento vil.

  E, a partir daí, fica a pergunta: o nível dos debates caiu porque houve queda na qualificação dos postulantes ou porque houve uma queda na exigência de qualidade por parte dos eleitores e telespectadores, cada vez mais fanáticos e envoltos em um cenário de polarização acirrada?

  Será que os postulantes e até mesmo os meios de comunicação não perceberam que a demanda agora parece ser por troca de ofensas, e não por divergências de ideias?

  Ainda sou um defensor ferrenho dos debates, mesmo nos moldes atuais, porque são melhores do que a ausência deles. Porém, entendo que perderam a capacidade de definir votos e, quiçá, de agregar politização ao eleitor. Não os assisto mais; não me servem como referência qualitativa para minhas próprias decisões enquanto eleitor.

  Se for para ver uma troca constante de farpas, prefiro assistir aos duelos entre repentistas: ao menos vejo neles uma manifestação cultural de qualidade, com humor inteligente e popular...


  • Nando Freitas, funcionário público estadual

16 de out. de 2026

Comentário: "A importância do Estado laico" - Escrito também no Blog do Toninho

    



"A importância do Estado laico"


  O primeiro contato que tive com o tema da intolerância religiosa foi por meio da dramaturgia, assistindo à minissérie O Pagador de Promessas, na TV Globo, em 1988, protagonizada por José Mayer. Originalmente escrita para o teatro por Dias Gomes, em 1960, a obra foi adaptada para o cinema em 1962, vencendo a Palma de Ouro no Festival de Cannes e tornando-se o primeiro filme brasileiro a concorrer ao Oscar na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”.

  Basicamente, a história conta a saga de Zé do Burro, um camponês que faz uma promessa para que seu burrinho de estimação, chamado Nicolau, se cure após ser atingido por um raio. A promessa é feita em um terreiro de candomblé à Iansã, que, no sincretismo religioso com o catolicismo, corresponde a Santa Bárbara, protetora contra as tempestades. Zé do Burro promete carregar uma cruz até a igreja da santa, em Salvador, mas enfrenta a oposição do padre justamente por conta do sincretismo religioso que está na origem da promessa. A partir daí, a saga do protagonista ganha outros contornos, inclusive políticos, quando muitos associam, de forma sensacionalista. sua história à pauta da reforma agrária.

  O telespectador que tem o mínimo de empatia solidariza-se com Zé do Burro. Afinal, a trama o trata como um ingênuo injustiçado, o que, de fato, ele é. Porém, o sentimento é apenas de piedade, pois se trata de uma obra de ficção que tem a intolerância religiosa como tema central.

  No entanto, o sentimento transforma-se em revolta quando aquilo que é sagrado para o indivíduo torna-se objeto de desrespeito. Foi o que senti quando o pastor Sérgio Von Helder chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, em um programa televisivo, no ano de 1995. Enquanto católico, obviamente, fiquei indignado.

  Porém, não deixei de fazer uma autorreflexão acerca do fato: quantas outras religiões praticadas no Brasil não sofrem agressões semelhantes por parte da maioria cristã, composta por católicos e protestantes? Quantas vezes não ouvimos a célebre frase “chuta que é macumba” ou até mesmo afirmações de que outras doutrinas minoritárias seriam manifestações de forças malignas?

Pois é, se queremos respeito ao “nosso sagrado”, devemos respeitar o sagrado alheio. É para isso que serve o Estado laico: para que todas as religiões sejam praticadas com liberdade de culto e respeito mútuo. Contudo, um novo sincretismo, o político-religioso, desvirtua a essência do Estado laico, alegando, de forma equivocada, que este pretende proibir as religiões e persegui-las.

  Desonestidade intelectual que parece ter um único objetivo: transformar o país numa teocracia informal e oportunista, com finalidades essencialmente políticas. Mas a Constituição Federal está aí para ser tão respeitada quanto as Bíblias, os Alcorões e as Torás. Que cada cidadão brasileiro tenha o direito de frequentar livremente terreiros, mesquitas, sinagogas, centros espíritas e igrejas. E que a liberdade de culto seja tão sagrada quanto a fé de cada um!

Nando Freitas, ( O Eldoradense )

  

          

13 de out. de 2026

DJI Avata 2 na foz do Caiuazinho

   E na tarde de ontem, no feriado Nacional de Nossa Senhora Aparecida, fiz um voo na foz do Córrego Caiuazinho, no encontro com o Rio Paraná, em Presidente Epitácio. Confira as imagens...


* O Eldoradense

9 de out. de 2026

Crônica: "Ler é saber"

   Texto de minha autoria publicado ontem, no Blog do Toninho...

 


"Ler é saber"


  Lembro-me do título deste texto sendo o nome de uma banca de livros, jornais e revistas que havia no piso superior do Terminal Rodoviário de Presidente Venceslau nos anos 90 e início da década seguinte. Não é preciso dizer que a frase faz todo o sentido, levando-se em consideração a importância da leitura e os horizontes que podem ser abertos ao indivíduo quando ele passa a exercer tal hábito.

  Sabe-se que nosso país sofreu por muito tempo com um fenômeno vergonhoso chamado analfabetismo. Pessoas que, mesmo na fase adulta da vida, não conseguiam ler e, consequentemente, escrever. Enquanto o Brasil era um país predominantemente agrário, muitas dessas pessoas garantiam a sobrevivência por meio do trabalho braçal desde a infância, abrindo mão da frequência escolar ou, então, frequentando as instituições de ensino por pouquíssimos anos.

  Vieram a industrialização e o êxodo rural. Com eles, a mudança do perfil do trabalhador assalariado, cuja alfabetização passou a ser uma necessidade. Aumentou-se vertiginosamente o número de escolas, a educação pública foi democratizada, as taxas de analfabetismo diminuíram, chegando ao atual patamar mínimo da série histórica, de 4,9 pontos percentuais na população de 15 anos ou mais.

  Porém, há uma outra realidade no tocante ao assunto que assusta: o analfabetismo funcional atinge hoje praticamente 30% dos brasileiros na faixa etária entre 15 e 64 anos. Falando de forma bem simplificada, significa que boa parte da nossa população lê e escreve de forma precária, com pouca ou nenhuma compreensão do significado de palavras, frases e textos relativamente simples. À medida que as palavras e os textos tornam-se mais complexos, o fenômeno ganha ainda mais visibilidade.

  Obviamente, o fato se deve principalmente à baixa qualidade do ensino público. Mas existe um outro componente também crucial para a incômoda estatística: não temos o hábito de ler!
Não sei se por falta de incentivo, por conta do clima tropical, por preguiça ou até mesmo pelo poder sedutor do entretenimento digital, é fato que o brasileiro ainda é avesso aos livros. Faço uma pergunta: quanto tempo dos nossos dias dedicamos ao aparelho celular, muitas vezes assistindo, por exemplo, a vídeos curtíssimos que nada agregam ao conhecimento?

Por outro lado, hoje, o acesso à leitura é indiscutivelmente melhor: muitas cidades têm bibliotecas municipais, existem programas de incentivo à leitura, bem como os preços dos livros tornaram-se mais acessíveis. A gama de títulos e assuntos é variadíssima, e não é possível que não haja um tema com o qual um indivíduo se identifique.

  Ler é um exercício essencial, que demanda paciência, estímulo e foco, mas que, depois, torna-se prazeroso. Folhear um livro, embrenhar-se e viajar nas suas histórias, bem como expandir horizontes e conhecimento, é essencial nos dias atuais, fazendo com que o leitor se torne não apenas alguém mais preparado para a vida, como também um cidadão mais crítico, autônomo e consciente. E é a partir de cada edificação individual que o progresso coletivo se alcança e se consolida.

Não tenho conhecimento de nenhuma nação do globo terrestre que tenha conseguido um patamar socioeconômico de excelência sem uma eficiente base educacional e cultural. Enquanto nosso próprio povo encarar leitura e cultura como algo supérfluo, muitos não terão acesso ao básico.

É preciso, urgentemente, virar a página do analfabetismo funcional. E isso só se faz com muita leitura, estudo e busca pelo conhecimento. Para isso, é inegável que as políticas governamentais são importantes, porém, cada um de nós deve também fazer a própria parte. Caso contrário, a tal história do “país do futuro” será como um livro eternamente fechado e empoeirado nas prateleiras de uma estante…

NANDO FREITAS
Funcionário público estadual ( O Eldoradense )

Comentário: "Debates", escrito na última quinta feira no Blog do Toninho

"Debates"   Aprecio política desde a tenra idade. Atípico, admito. Aos sete anos, tentava compreender, através da televisão, o sig...