"Debates"
Aprecio política desde a tenra idade. Atípico, admito. Aos sete anos, tentava compreender, através da televisão, o significado da tal abertura política, da anistia, do fim da ditadura e das “Diretas Já”. Era um movimento que ganhava força tremenda nas grandes cidades brasileiras e reunia artistas, figuras políticas, personalidades influentes e uma multidão de populares nas ruas das metrópoles brasileiras. Curiosamente, em nossa pacata cidade interiorana, a vida parecia passar alheia ou, no mínimo, bem menos interessada no assunto. Talvez fosse uma impressão equivocada, não sei.
A compreensão foi amadurecendo conforme a adolescência foi chegando. Acompanhei, dentro das limitações naturais impostas pela faixa etária, o processo eleitoral de 1989. Dentre comícios, propaganda eleitoral gratuita e outros ritos que compõem uma eleição, o que eu mais apreciava eram os debates. Em teoria, é a oportunidade de o eleitor verificar, de forma mais direta, a argumentação de cada candidato, a clareza ao expor suas ideias, plataformas e planos de governo, bem como a capacidade de improviso diante de perguntas e situações adversas. Em teoria.
Digo isso porque, na prática, os debates estão se transformando numa espécie de “vale-tudo verborrágico”, em que nada se elucida, pouco se acrescenta e muito se ofende. A provocação ganhou prioridade em detrimento da explanação; o cinismo passou a prevalecer sobre o civismo.
Não que as provocações inexistissem no passado. Porém, elas eram o tempero, não o prato principal. E, quando aconteciam, eram dotadas de um sarcasmo inteligente e polido, sendo raras as situações vexatórias e constrangedoras de hoje, que, inclusive, já chegaram às vias de fato. Exemplo concreto foi a “cadeirada” desferida por José Luiz Datena em Pablo Marçal, durante um debate no último pleito municipal da cidade mais populosa das Américas, São Paulo. A provocação extremamente desrespeitosa de um resultou na reação passional do outro, gerando uma cena patética, uma afronta à democracia pela qual muitos lutaram.
Entendo que, mesmo nos dias atuais, os debates são de suma importância para a democracia, mas talvez tenham perdido sua finalidade, que é esclarecer e elucidar. Eles se tornaram um espetáculo bizarro, semelhante aos reality shows de gosto duvidoso transmitidos para telespectadores sedentos por entretenimento vil.
E, a partir daí, fica a pergunta: o nível dos debates caiu porque houve queda na qualificação dos postulantes ou porque houve uma queda na exigência de qualidade por parte dos eleitores e telespectadores, cada vez mais fanáticos e envoltos em um cenário de polarização acirrada?
Será que os postulantes e até mesmo os meios de comunicação não perceberam que a demanda agora parece ser por troca de ofensas, e não por divergências de ideias?
Ainda sou um defensor ferrenho dos debates, mesmo nos moldes atuais, porque são melhores do que a ausência deles. Porém, entendo que perderam a capacidade de definir votos e, quiçá, de agregar politização ao eleitor. Não os assisto mais; não me servem como referência qualitativa para minhas próprias decisões enquanto eleitor.
Se for para ver uma troca constante de farpas, prefiro assistir aos duelos entre repentistas: ao menos vejo neles uma manifestação cultural de qualidade, com humor inteligente e popular...
Nando Freitas, funcionário público estadual

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