7 de nov. de 2023

Conto: "Iniciativa privada"

 



   Romildo era jardineiro na pequena e próspera Mitolândia, cidade recentemente emancipada do interior paulista. A cidade até então era distrito de uma outra, um pouco maior, mas o sentimento de independência ganhou força após a descoberta de inúmeras reservas minerais de nióbio em seus domínios territoriais. E economia do lugar deu um salto exponencial, com a instalação de indústrias de extração e beneficiamento do metal, gerando empregos e qualidade de vida para a população.

    O protagonista deste conto mantinha boa relação com os "Barões do Nióbio", que moravam em seus condomínios de luxo, e volta e meia precisavam dar aquele trato em seus jardins coloridos e suntuosos. Romildo, que zelava pelas pequenas praças do lugar desde a época distrital, passou a nutrir grande admiração pelos barões, que lhe pagavam pouco pelos serviços particulares, mas sempre lhe davam panetone e vinho no final do ano. 

    A economia pujante fez com que o prefeito, que teve a campanha financiada pelos Barões do Nióbio privatizasse praticamente tudo: Terminal rodoviário, praças esportivas, balneário, Biblioteca Municipal. A exceção, até então, eram os banheiros públicos. Mas logo veio o discurso de que os mesmos estavam mal cuidados e que precisavam passar para a iniciativa privada. 

      Romildo, que cuidava das praças, via que os banheiros precisavam mesmo de melhores cuidados. Ao conversar com vários Barões do Nióbio, percebeu que realmente as privadas públicas necessitavam se tornar privadas privadas. Tornou-se um entusiasta da privataria, sempre dizendo que graças à privatização, ele e toda sua família possuía aparelhos celulares. Curiosamente, Romildo não se lembrava que a ferrovia que passava ao lado da praça central de Mitolândia foi sucateada após a terceirização da mesma. Mas afinal, os celulares encurtaram as distâncias em velocidades bem maiores que a dos trens, não é mesmo?

   Karina Helena, filha de um barão do nióbio influente em Mitolândia, logo teve a ideia de fundar uma empresa especializada na gestão de banheiros. Nasceu, rapidamente, a "KH toaletes", que venceu a licitação de forma pra lá de suspeita. Os banheiros, justiça seja feita, no começo do processo, funcionavam bem: Mediante um cartão de recarga, o usuário adentrava no toalete, digitava o serviço desejado através das teclas "1" ou "2", e sentiam-se como verdadeiros reis no trono. Ao lado dos sanitários, tomada para recarga de celulares. Caixas de som tocavam músicas relaxantes, e um odor agradável de flores do campo era exalado através de inúmeros jatos aromatizantes. Um brinco! 

   Porém, o serviço não era barato: A recarga mínima do cartão era de 20 reais, sendo que o preço para quem apertasse a "tecla 1" era 8 reais, e para a "tecla 2", 12 reais. Como cortesia, a "KH toaletes" deu uma bônus inicial de 20 reais para cada cidadão. Romildo, enquanto cuidava do jardim da praça central, resolveu estrear seus créditos: apertou as duas teclas e fez jus à sua solicitação. Sentiu-se um cidadão respeitado, que poderia enfim, urinar e defecar com dignidade na praça, (ainda pública!).

    Todavia, não fez nova recarga, pois a grana era curta. Duas semanas depois, na mesma praça central, sentiu o estômago enjoar, após comer um pão com mortadela que pareceu não lhe cair bem. Correu desesperado até a unidade da praça central da  "KH toaletes". Sacou o cartão do bolso, inseriu várias vezes no leitor magnético, e por outras várias vezes, ouviu o alto falante dizer: "Lamento, saldo insuficiente!". Um suor frio correu pelo seu rosto e outra coisa mais quente correu no fundo de suas calças. Romildo percebeu que foi uma cagada apoiar a privatização incondicional das privadas públicas. Mas a barriga já havia doído, e já era tarde...

    

    * O Eldoradense

      

15 de out. de 2023

Comentário: "Mais uma guerra"...

 


  O mundo contemporâneo se depara com mais uma guerra, infelizmente. Enquanto os conflitos entre Ucrânia e Rússia perduram por quase dois anos, eclodiu, mais uma vez, um sangrento combate entre judeus e palestinos onde se encontra geograficamente o Estado de Israel. O Oriente Médio, berço das três maiores religiões monoteístas do mundo, era para ser um lugar sagrado, de fato, onde reinasse a paz e a tolerância, tanto sob o ponto de vista étnico, quando religioso. Tanto o Judaísmo, o Cristianismo quanto o Islamismo, tem, na sua origem, segundo relatos, a descendência de Abraão. Mas este fator em comum não une as três religiões, pelo contrário, as separam.

   Em nosso país, vejo muita gente tomando partido por um lado específico do conflito, motivados pela ascendência judia de Jesus Cristo, bem como pelas covardes intervenções dos grupos terroristas árabes. Lembro que naquela região os Cristãos são minoria, e sofrem perseguições de ambos os lados: dos extremistas islâmicos, bem como dos judeus ortodoxos. Porém, pouca gente parece ter conhecimento da segunda informação. Todavia,  basta uma pesquisa mínima para ver que o Estado judeu, sob o governo de Benjamin Netanyahu pouco tem feito a respeito, beirando a total omissão. Quanto ao contra-ataque, o mesmo é obviamente inevitável, porém, muitos inocentes muçulmanos também estão perdendo suas vidas de forma desumana e covarde.

   Lembremos que o atual Estado de Israel surgiu em meio à grande influência britânica na região em meados do século passado, e, com a chancela da ONU, fatiou-se a Palestina em duas partes distintas, o que gerou imensa insatisfação dos países árabes. Israel, tornou-se, portanto, uma ilha judia em meio a inúmeras nações muçulmanas. Os conflitos são uma constante ao longo destas quase oito décadas, e a reivindicação de um Estado oficial palestino é legítima, porém, é claro, contesta-se os métodos bárbaros, covardes e sanguinários dos terroristas muçulmanos.

     Acho superficial tomar partido de um dos lados. O cenário geográfico-histórico dos conflitos é complexo demais para uma conclusão, e penso que a postura mais correta é clamar fervorosamente pelo cessar fogo e redução de danos, já que pedir a instauração da paz, parece ser Utopia.

     China e Rússia adotam o discurso pró criação do Estado Palestino, e o Irã, por mais que negue, está por trás dos ataques terroristas. Os Estados Unidos e as principais forças ocidentais são aliados históricos dos Israelenses. Mediante divergências entre grandes ideológicas entre grandes potências econômicas e bélicas, acho sensato temer os desdobramentos do conflito e não alimentar um ódio milenar, que tantas pessoas já fez sofrer. Peçamos a interrupção do embate, exatamente para que esta guerra pontual não se espalhe pelo globo e nos atinja de forma mais direta.  É o que penso.


* O Eldoradense

4 de out. de 2023

Conto: "Aconteceu anteontem"

 "A minha casa está onde está o meu coração... Ele muda, a minha casa, não! Porque sou apenas movimento, sou do mundo, sou do vento, nômade..."

Trecho da música "Nômade", do Skank...



  Amigo leitor: Ainda que eu tenha classificado este texto como um "conto", entenda-o como um relato fidedigno de um "causo" que eu mesmo presenciei. Aconteceu anteontem, durante o pedal matinal que faço em dias de folga. Algo que pode ser considerado inusitado e que pode remeter os que têm mais sensibilidade a uma reflexão mínima sobre os diferentes conceitos de necessidades materiais, liberdade e conforto.

     Vigésimo quilômetro de treino, o sol venceslauense dando o ar da graça, perto das nove da manhã, num final subida. No sentido contrário ao meu, adentrando a ciclovia, um homem, também de bicicleta, acena, num gesto claro de pedido de favor. Quando cheguei perto dele, o mesmo diz:

   Por favor, me desculpe atrapalhar seu pedal. Preciso que o senhor me diga onde fica a bicicletaria mais próxima. Preciso comprar remendos para os pneus...

    Antes de que eu desse a informação, foi inevitável a observação: A bicicleta precária, o homem com ar sofrido, desdentado,  cabelos desegrenhados, vestes extremamente simples. Sobre a garupa da bicicleta, uma caixa de papelão na vertical, e dentro dela, um pote de margarina contendo ração, e ao lado do mesmo, um simpático cachorro caramelo "sem raça definida", aparentando ser muito bem tratado pelo seu dono. Atrás da garupa, um saco enorme de latinhas de bebidas e uma bandeira surrrada do Brasil, geralmente usada por quem faz cicloturismo.

       Expliquei o caminho para a bicicletaria mais próxima, no centro da cidade. O homem agradeceu com a educação superior a de muitos homens bem vestidos que já conheci. A humildade contida na sua fala beirava a subserviência, porém, a distância do pedal que ele disse ter percorrido, demonstrava uma força interior descomunal: O personagem em questão vinha de Pernambuco, emendando uma segunda pergunta:

    Compensa entrar aqui, ou seguir adiante, para a cidade mais próxima, sentido Mato Grosso do Sul?

     Respondi que compensava entrar em Presidente Venceslau, e em resposta, recebi novo agradecimento e uma benção. Segui adiante mais cinco quilômetros, pensando naquela figura e fazendo questionamentos íntimos: Qual o destino final? Qual a história de vida? Seria mais um retirante nordestino à procura de boa sorte? Aventureiro? Turista? Encontraria a "bicicletaria do João" para comprar os tais remendos?

        Com as indagações na cabeça, resolvi que retornaria ao centro para saber ao menos se ele obteve êxito em achar a bicicletaria. A vontade era de pegar o aparelho celular, bater um papo, perguntar um monte de coisas e publicar na rede social. Porém, a timidez e a sensação de invadir a privacidade alheia como recompensa por uma mera informação freou tais intenções.

       Ao chegar perto do posto de saúde, lá estava o sujeito, conversando animadamente com uma outra pessoa, e eu perguntei se havia dado certo a compra dos remendos para os pneus. Ele respondeu alegre que havia ganho vinte remendos do João, que certamente se sensibilizou com as circunstâncias da viagem daquele homem. Agradeceu mais uma vez e me desejou "bom pedal", num educado e posterior "vai com Deus".

      Terminei o treino e me arrependi por não ter sequer tentado esclarecer minhas indagações. Sabe-se lá qual a história de vida daquele homem, se procurava remendos apenas para os pneus da bicicleta, ou também para a alma. Há também a possibilidade de que seu sofrimento seja apenas aparente, e que ele seja um cara muito feliz com seu fiel escudeiro canino, liberdade e desprendimento. De todas as dúvidas, uma única certeza: A de que ele saiu com uma boa impressão de Presidente Venceslau, através das singelas colaborações para que seguisse seu destino...

* O Eldoradense

25 de set. de 2023

Conto: "Confissões"

 



 Padre Deocleciano havia feito uma homilia contundente, digna de elogios por parte do Bispo Homero. Com toda sua eloquência, argumentou com todas as forças contra a possível descriminalização do aborto, causando grande comoção nos fieis da igreja matriz da pequena e fictícia Bodocó do sul, situada na região da também fictícia Cactolândia. Há de se dizer aqui que tanto o padre quanto o Bispo são homens de caráter ilibado, que sempre agiram conforme suas convicções religiosas e que nem sob o olhar mais crítico e maldoso, possuíam desvio de conduta.

     No dia seguinte à homilia, um homem estranho aparece na igreja matriz, suplicando confissão. O padre então vai ao confessionário, e o pecador em questão, um forasteiro vindo de outro estado, começa a expor suas faltas, gravíssimas por sinal:

     Padre, eu cometi cinco estupros em três lugares diferentes em que morei. Todos eles seguidos por feminicídio e ocultação de cadáver, e por isso, até agora, sem esclarecimento para a justiça dos homens. E sinceramente, eles nunca me descobrirão, porque eu estou acima de qualquer suspeita e faço tudo muito bem feito. Porém, arrependido dos meus pecados, vim até o senhor pedir clemência e remissão.

    Ao ouvir aquilo, padre Deocleciano sentiu náuseas e uma ira nunca dantes sentida em sua alma. Surpreendeu-se em experimentar tais sensações, pois era um homem sereno diante de tudo. Mas, em toda a sua sabedoria, conteve-se e disse, gaguejando muito e incerto sobre sua indulgência:

     Considere-se perdoado pelos seus pecados, porém, saia daqui e não peques mais!

   O forasteiro, então, nada disse, mas seu semblante estava visivelmente aliviado. Semanas depois, uma mulher foi dada como desaparecida pela justiça de Bodocó do Sul. Outros desaparecimentos de mulheres jovens adultas ocorreram num raio de 50 km: Uma em Benguê, duas em Tira e põe e outras três em Cactolândia. Padre Deocleciano, em seu íntimo, suspeitava sobre quem estava por trás dos desaparecimentos.

     Não poderia denunciar o autor dos crimes à justiça, pois isso violaria as leis do direito canônico. Mas sua omissão íntima também contrastava com suas convicções inegociáveis pelo direito à vida. Viveu, por algumas semanas, um dilema cruel que consumiu sua alma.

    Até que um dia, fez o que achou mais correto: Procurou o delegado da pequena cidade para uma conversa a sós, sem as formalidades do boletim de ocorrência. Expôs suas suspeitas quase certeiras, baseadas na confissão do forasteiro. Posteriormente, a equipe de investigadores de Bodocó do Sul se colocou no encalço do psicopata. Em menos de um mês a prisão foi feita, mediante um flagrante arriscado, onde o forasteiro criminoso estava prestes a fazer mais uma vítima.

      Depois da denúncia e da prisão do meliante, os desaparecimentos de mulheres cessaram na região. Porém, numa crise de consciência por ter violado o direito canônico, Deocleciano foi se confessar com o Bispo Homero, na Diocese de Cactolândia. O Bispo, com toda sua sabedoria, disse ao subordinado sacerdote:

      Considera-te perdoado pelo teu pecado, mas para que sua remissão seja total, renegue ao sacerdócio e não vistas mais a batina, pois segundo o direito Canônico, com muita dor no coração, serei obrigado a excomungá-lo. E sinceramente, não é isso que eu quero fazer...

    Numa última homilia, o padre renunciou à batina e continuou defendendo o direito à vida, tanto sob a luz das leis de Deus, quanto sob a ótica das leis dos homens. Reencontrou sua paz soberana e íntima, e hoje leciona teologia numa universidade da capital...

 

       O Eldoradense


5 de set. de 2023

Resenha literária: "Marés da vida", de Rose Hardt!

 E a resenha literária de hoje é sobre o livro "Marés da Vida", da escritora alemã Rose Hardt. Confira! 


* O Eldoradense

DJI Avata 2: "Caminho dos devotos"

  E na última quinta-feira fiz um voo no "Caminho dos devotos", um santuário localizado na Rodovia Assis Chateaubriand, no municíp...