12 de jun. de 2020

Conto: "A morte em quinze vezes"






"A morte em quinze vezes"

      Ambos estavam sentados na mesa de um reles botequim pra lá de suspeito, tomando cachaça e conversando reservadamente...

         - Então, Afonso... eu preciso que tudo ocorra da forma mais convincente possível, só estou na dúvida de como fazer a cena...

        - Que tal a gente simular um afogamento no Rio Paraná?

          - É, não deixa de ser uma ideia interessante. Mas eu confesso que a possibilidade de simular uma sequestro também me atrai. 

            - Bom, aí fica um pouco mais caro. Vamos precisar do mesmo tanto de gente, mas vai ser preciso usar um carro veloz e armar todo mundo, para intimidar...

            - Tá, então vamos de afogamento mesmo! Quanto você cobra?

           - Bom, Alceu... Como a gente já fez alguns trabalhos juntos, te faço por quatro mil reais, sem choro, nem velas. Mas para ajudar,  divido em até quinze vezes no cartão de crédito...

            - Será que é bom ter uma reza antes da morte? 

         - Eu sou ateu, mas em nome do profissionalismo, aprendo as rezas no Youtube, na Rede Vida ou na Canção Nova...

           - Fechou! Pode ser amanhã de manhã?

           - Sim, te garanto que sairá tudo nos conformes...

      Os dois sujeitos se cumprimentaram satisfeitos e fecharam o negócio. Alceu e Afonso são amigos e amantes da sétima arte. Um é diretor, e o outro, dublê. A cena encomendada fará parte de um curta metragem violento e impactante. Acho que vai sair um serviço bem feito!

* O Eldoradense 

11 de jun. de 2020

Conto: "A noiva incandescente"

O Recife Assombrado | O Espectro da Noiva



      A história da colonização do Pontal do Paranapanema é marcada pela dizimação dos povos indígenas, desmatamento e grilagem de terras. O fato ocorrido pode ter acontecido onde hoje é alguma gleba, assentamento, ou até mesmo num dos inúmeros latifúndios deste cantinho esquecido no oeste do estado de São Paulo. E talvez pela ocorrência de tantas mortes no passado, alguns episódios sobrenaturais se tornaram comuns nas narrativas dos velhos moradores deste lugar. A história da "noiva incandescente" é de conhecimento de poucos, mas a partir de hoje, torna-se pública...

       O jovem Adriano tinha resolvido trabalhar mais um pouco na roça de café que cultivava no sítio dos seus pais, João Pedro e Angelina. O crepúsculo daquele dia de junho parecia sombrio, misterioso, diferente. Adriano estava focado no serviço, tinha comido apenas uma fruta na hora do almoço, e nada mais. Carpia, semeava, esfregava a testa com as costas das mãos, suspirava. Queria porque queria que a prosperidade do cafezal se desse o quanto antes.

      Deu uma pausa. Olhou para trás. Uma névoa branca e longínqua rompia a escuridão que engolia o cenário. Não deu importância. Tornou a carpir. Enxadadas profundas, que mesclavam força e pressa. Começou a suar frio de cansaço. Nova pausa, e quando olhou para trás, a névoa estava um pouco mais próxima, mas indefinida. Deveria ser o famoso fogo fátuo, a conhecida luz branca que emana da profundidade da terra que se origina de material em decomposição: alguma cabeça de gado ou animal de estimação que fora ali enterrado e se tornara gás luminoso em sublimação.

      Bom, mas isso não importava. Tinha que acabar logo o trabalho e jantar, pois até então, só tinha comido um único caqui. Porém, já estava perdendo as forças, infelizmente. À sua frente, um clarão alvo passou a ofuscar sua visão. Quando olhou para trás, uma imagem assustadora se fez presente: Uma noiva incandescente, envolta numa luz branca, carregando um buquê de flores e dona de um semblante triste.

       Adriano correu com todas as forças em direção à casa dos pais. Bateu na porta em desespero, e foi recebido pelo velho João Pedro, desmaiando em seus braços.

   Quando acordou, disse ao casal tudo o que tinha presenciado, e os pais preferiam não duvidar da palavra do filho, ainda que intimamente, não acreditassem em assombrações. Deram a Adriano uma boa pratada de comida, pois certamente aquilo era fraqueza e alucinação por conta da fome e do trabalho pesado.

        Pode até ser coisa de estômago quase vazio alimentado por um mero caqui durante o dia todo. Mas não sei não! Há quem diga que no princípio da colonização, a filha de um grileiro, noiva de um advogado da capital, morreu flechada por um índio Caiuá. E que sendo assim, de tempos em tempos ela vaga pelos campos do Pontal, querendo sacramentar o matrimônio... Vai saber!

* O Eldoradense     

10 de jun. de 2020

Alfinetada: "O beabá da Geografia"

  Amigo leitor, talvez você não goste de Geografia, mas eu sou graduado neste assunto. E talvez por isso, quando eu assisti ao vídeo abaixo eu não sabia se eu ria, ou se chorava. Com vocês, uma explicação didática sobre a Geografia e Clima do Brasil com o Ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello...


   Só para ilustrar, este é o Mapa do Brasil, e tudo o que está abaixo da Linha do Equador, é considerado Hemisfério Sul. 



Indagações


  E mesmo assim, o pouco território brasileiro situado no Hemisfério Norte, é composto por uma área tão quente que faz capeta pedir permissão a Deus pra tomar banho de piscina. Enfim, este general deve ter ido jogar bola durante as aulas de geografia. E só pra salientar: Ele é o Ministro da Saúde em meio à pandemia do Coronavírus!

* O Eldoradense

4 de jun. de 2020

Comentário: "As manifestações contra o racismo nos EUA"

Caso George Floyd: EUA registram outra jornada de protestos e ...



     Não bastando o fato de os Estados Unidos liderarem o cenário da pandemia do coronavírus tanto em número de casos quanto em número de óbitos, o país testemunha também uma onda de manifestações de cunho racial, motivada pela covarde ação policial que matou George Floyd. 

       Os norte-americanos convivem com a segregação racial acirrada desde a colonização escravocrata, passando pela criação da seita racista Klu Klux Klan, o movimento dos Panteras Negras, e chegando até aqui, nos dias atuais, com esta onda gigantesca de protestos que clamam pelo fim da opressão contra os afrodescendentes da terra do Tio Sam.

     Os fatos atuais mostram que nem mesmo a eleição do ex-presidente  Barack Obama diminuiu o ímpeto racista. Pelo contrário: os radicais conservadores americanos pareceram incomodados, conseguindo impulsionar a eleição do sucessor Donald Trump.

    E sejamos sinceros: o atual presidente em nada tem contribuído para apaziguar os ânimos. Disse que para a onda de manifestações e saques, mais tiros devem ser dados. Portanto, alimenta uma bola de neve, um grave círculo vicioso de violência. Não é à toa que escondeu-se feito rato quando a Casa Branca foi rodeada por manifestantes negros. 

       E quando eu acho que vi atrocidades demais, percebo que quem se manifesta contra o racismo e se identifica com as manifestações é rotulado de "lacrador", "esquerdista" ou qualquer coisa do gênero. E é aí que você entende porque o mundo está este verdadeiro caos: há gente demais que se vê representada em discursos arcaicos e retrógrados. Está difícil entender que a questão do racismo está longe de ser uma "modinha" partidária ou ideológica. É, antes de tudo, uma questão humanitária...

* O Eldoradense Resultado de imagem para punho negro cerrado

3 de jun. de 2020

Conto: "Tudo pela ciência"

Um Homem De Negócios Que Entrega Em Um Envelope Vazio Imagem de ...



      Depois de ter inventado uma engenhoca que descobria os pensamentos alheios, o engenheiro eletrônico Laércio Brás não teve mais paz, e por isso, destruiu a geringonça. Tornou-se mais isolado e desconfiado, pois descobriu que o casamento estava falido e era rodeado por amigos falsos. Separou-se e tornou-se uma pessoa de poucos contatos. Salvo o Adoniram, renomado professor de filosofia de uma conceituada Universidade Pública da capital: materialista ao extremo e ateu convicto.

     Certa feita, depois de muitas doses de uísque na cachola, os dois amigos entraram em um debate sobre a existência dos espíritos e vida após a morte. Laércio era daqueles caras  irritantemente chatos,  e tinha a velha mania de provar a autenticidade de suas convicções. O problema é que Adoniram era tão ou mais teimoso que o amigo.

        Fizeram uma aposta: Em trinta dias, Laércio deveria construir uma máquina que fotografaria espíritos vagantes. Se obtivesse sucesso, receberia cinco mil reais do amigo, e em caso de fracasso, ficaria cinco mil reais mais pobre. 

          Passado um mês, ambos amigos encontram-se na mesma mesa de bar e Laércio reconheceu insucesso que julgava provisório. O engenheiro pagou a grana ao amigo, que zombou dele a noite inteira, ferindo seu ego. Mas antes de sair, disse ao professor de filosofia:

            - Você sabe que eu provo tudo o que acredito ser verdade. Nesta noite vou providenciar a minha viagem para o além, e depois, te dou um jeito de lhe avisar que eu estava certo.

         Como ambos estavam pra lá de Bagdá, Adoniram nem ligou para aquela baboseira toda. Mas Laércio ia provar que estava certo, como sempre fez. Ao chegar em casa, olhou-se no espelho com olhar mórbido, e como passaporte para o além, tinha três opções: Uma carabina carregada, uma peixeira de baiano e um copo de veneno estricnina. Bebeu o líquido letal numa talagada só. No dia seguinte, as cenas do suicídio estampavam a primeira página dos jornais sensacionalistas da cidade.

       Quinze dias depois, alguém bateu palmas na casa de Adoniram. O rapaz se dizia voluntário de um Centro espírita localizado a mais ou menos uns três quilômetros da casa do professor. Ao abrir o envelope que continha um bilhete psicografado, as poucas palavras diziam:

             "Velho amigo, para variar, eu estava mesmo certo. Existe vida após à morte, mas aqui é um tédio, e por enquanto, eu não posso voltar para puxar seus pés"

               O senso de humor e o estilo da escrita diziam por si só: Laércio provou de fato ao amigo que não estava errado. Adoniram deu um sorriso de canto de boca e fez questão de levar cinco mil reais ao único filho do falecido. Disse ao jovem apenas que era uma dívida do passado. Converteu-se a uma destas várias igrejas neopentecostais da atualidade e mudou totalmente o teor das suas aulas de filosofia...

* O Eldoradense    

2 de jun. de 2020

Comentário: "Voltar atrás"

Voltar atrás: Educação de A a Z - iG



     A expressão do ponto de vista literal, por si só, já origina uma dúvida quanto a uma possível redundância: Há os que questionam se o termo cai neste vício de linguagem, outros não. Levando-se em conta a dúvida literária, "voltar atrás" não se caracteriza pleonasmo, segundo os maiores conhecedores da nossa língua. Pois pode se voltar para trás, para o lado, para a cidade, ou para inúmeras possibilidades. Diferente de subir, que automaticamente é para cima, e descer, que obviamente se faz para baixo. Dúvida literária sanada, partimos para as interpretações quanto à atitude...

    Voltar atrás, para os mais críticos, pode soar como indecisão, falta de personalidade, de firmeza, de pulso, de autonomia. Os mais radicais dirão que quem o faz não tem palavra, posicionamento, sendo que o sujeito pode até ser rotulado pejorativamente como "vira casaca" ou "traíra". Isso é relativo, pois quem assim procede de forma banal, superficial, volátil e incoerente, talvez até mereça mesmo estes rótulos. Mas isso não acontece necessariamente em todos os casos.

    Há aquele grupo de pessoas que o faz depois de reavaliar meticulosamente, de analisar prós e contras, de reconsiderar, de analisar e concluir que talvez sejam necessários recuos estratégicos. É o famoso retroceder uma casa para avançar duas. Acontece nas táticas de esportes coletivos, nas guerras, nos jogos de tabuleiro. Bem como também, acontece em inúmeras outras situações da vida. 

  Voltar atrás, em determinadas ocasiões, significa racionalidade, inteligência, correção, e principalmente humildade. Em um mundo bombardeado por tantas informações, cada vez se faz mais necessário dar um "reset" nas próprias convicções. Sim, a tal "palavra de homem" pode sofrer alterações, desde que aconteça para fins de aprimoramento. Portanto leitor, se um dia você achar que em dado momento da vida seja necessário "voltar atrás", não se acanhe: O mundo está cada vez mais dinâmico, e não é demérito nenhum tentar adequar-se a isso com prudência e equilíbrio. Somos falíveis e passíveis de erros, portanto, comportar-se de forma estática e imutável pode ser considerado um dos maiores equívocos dos dias atuais...

* O Eldoradense


1 de jun. de 2020

Alfinetada: "O discurso da união começou a fazer efeito"




    "Quando tomou posse, o presidente Jair Bolsonaro disse que adotaria uma postura de união, buscando conciliar o país. Parece ter começado a fazer efeito: Integrantes das torcidas organizadas dos quatro maiores clubes de São Paulo se uniram... Contra ele!"

* O Eldoradense

DJI Avata 2: "Caminho dos devotos"

  E na última quinta-feira fiz um voo no "Caminho dos devotos", um santuário localizado na Rodovia Assis Chateaubriand, no municíp...